O Pensamento Liberal XXI
  

A grande verdade que ambos os candidatos representam o voto do não ou repulsa, você conversa com algum amigo, faz seguinte pergunta qual seu candidato para presidente; rapaz, não voto no Lula, você diz também não quero votar no PSDB. A eleição desse ano para presidência da Republica, virou grande BBB global, candidato com menor rejeição será eleitor.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 14h43
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   Reino da desfaçatez

Mauro Chaves / Estado de São Paulo

Independentemente de quem vença as eleições, uma espécie de mutação moral já se operou - e resta apenas conferir seu volume de contaminação na sociedade brasileira. Vai-se diluindo, até a rarefação, a capacidade de os cidadãos brasileiros se espantarem com a distorção absoluta dos fatos, com a inversão despudorada da realidade e, acima de tudo, com o destroçar dos critérios de distinção entre o que seja profundamente indecente - quando não crime notório - e o que seja a coisa mais normal e lícita do mundo. Antigamente a figura pública que praticasse um ato ilegal, imoral ou antiético procurava esgueirar-se da imprensa, fugir de entrevistas ou declarações, para tentar (mesmo sem o conseguir) não perder a credibilidade, às vezes conquistada em muitos anos de carreira política. Hoje, o reino da desfaçatez adquiriu tamanha pujança que os comprometidos com o fisiologismo fazem questão absoluta de lhes dar a maior transparência, considerando normal, racional a falta de escrúpulo total.

Assim que anunciou apoio à reeleição do presidente Lula, o governador de Mato Grosso e rei da soja, Blairo Maggi, reeleito em primeiro turno, obteve recursos de R$ 3 bilhões para o agronegócio, sendo R$1 bilhão para seu Estado e R$ 2 bilhões para o restante do País - segundo garantia de liberação do dinheiro dada a ele pela ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Maggi é vice-presidente nacional do PPS, partido que ele levou a desistir da candidatura presidencial própria (de Roberto Freire) para aderir à candidatura Alckmin - que naquele Estado ganhou de Lula no primeiro turno (por 54,8% a 38,6% dos votos válidos). Ao ser indagado se condicionara a troca de apoio, do candidato tucano ao petista, à liberação daquelas verbas, em lugar de se espantar com a insultuosa insinuação e fazer um mínimo de defesa da própria ética, o governador mato-grossense disse apenas: 'Isso é normal numa pauta de reivindicações, quando você faz apoiamento. Isso faz parte da política.' É que, na geléia geral de valores que se introduziu no País, a insultuosa acusação de venda de apoio, de voto, de consciência pode virar, aos ouvidos do 'insultado', até um elogioso reconhecimento de capacidade de negociação política, em benefício do povo - mesmo que aí também haja uma vantagenzinha para o próprio negócio, pois, afinal, ninguém é de ferro, pô.

Isso me faz lembrar uma cena do filme A Noviça Rebelde. Irritado com o elogio aos nazistas que ouvia de um áulico chefete vienense, às vésperas da anexação (Anschluss), disse-lhe o capitão Von Trapp, um antinazista e fervoroso patriota austríaco: 'Tenho certeza de que quando os alemães entrarem em Viena o senhor será o primeiro a acompanhar a tropa.' Tendo o puxa-saco dos nazistas aberto um orgulhoso sorriso e agradecido a Von Trapp por aquelas palavras, disse-lhe o capitão: 'Perdão, eu achava que o estava ofendendo.'

As futuras antologias de segurança pública certamente comentarão o arremedo de investigação tragicômico, surrealista, que é a apuração que a Polícia Federal (PF) faz do caso dossiêgate. Há um mês o chefe da PF, o ministro-criminalista Thomaz Bastos, anunciava que já estava praticamente esclarecido o episódio do R$ 1,75 milhão encontrado num hotel, com agentes do PT, destinado à compra de um dossiê fajuto envolvendo o candidato tucano ao governo de São Paulo (o governador eleito José Serra) com os sanguessugas. Depois o ministro-criminalista, que tentara de todo jeito (sem o conseguir) censurar a divulgação da foto com a dinheirama viva, avisou que só depois das eleições seria possível esclarecer o caso. E o presidente Lula deu a entender que era o maior interessado nessa apuração, nem que pudesse demorar uns dez anos...

O grande argumento usado em favor da inocência do presidente no episódio - apesar de nele estarem envolvidos correligionários e amigos íntimos seus, de mais de 30 anos - é o da inversão do princípio do cui prodest, em que se busca a autoria do crime com base na investigação de quem dele melhor se aproveita. Só que os petistas inovaram, criando o princípio do cui non prodest, ou seja, o que isenta de culpa aqueles que acabaram não tirando vantagem do ilícito. Adotando esse princípio, inocentam-se todos os participantes de assaltos abortados pela polícia. E por que responsabilizar o juiz Lalau por desvios de dinheiro público, se ele se deu tão mal com aquela grande obra pública superfaturada? Então, culpada é a sociedade, que se deu bem livrando-se de um corrupto...

Quando o presidente do TSE, ministro Marco Aurélio Mello, fez aquele lúcido pronunciamento sobre o 'país do faz-de-conta', prometendo o maior rigor na cobrança de respeito à Lei Eleitoral, os condutores da campanha reeleitoral do presidente ficaram alertas. No começo faziam divisões de horário, separando o que era expediente de governo do que era campanha. Aos poucos, acostumando-se com a falta de sanções concretas da Justiça Eleitoral à justaposição de papéis (o de governante e o de candidato), os palácios presidenciais do Planalto foram se transformando em comitês eleitorais desbragados, com ministros e funcionários atuando a serviço eleitoral full time, sem nenhuma cerimônia. E chegou a ser até hilariante (se já dá para julgar crime engraçado) aquela reunião do presidente com os cantores evangélicos, na qual eles não cantaram (para evitar que a reunião virasse 'showmício', proibido por lei), mas o presidente, em pleno expediente e nas instalações de governo, pronunciou veemente discurso eleitoral, chamando seu adversário de 'samba de uma nota só' (esquecendo-se do 1,75 milhão de notas que aguardam explicação). É isso.

Mauro Chaves é jornalista, advogado, escritor, administrador de empresas e produtor cultural. E-mail: mauro.chaves@attglobal.net



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 12h37
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Dossiê: Telefones do governo serão rastreados
Congresso em Foco

Órgãos da administração pública, dentre eles, o Ministério da Integração Nacional, por determinação da Justiça Federal do Mato Grosso, deverão indicar responsáveis e usuários de linhas telefônicas que apareceram na quebra de sigilo dos envolvidos no escândalo da compra de um dossiê contra o governador eleito de São Paulo, José Serra (PSDB).

Serão analisadas as chamadas originadas e recebidas por Valdebran Padilha e Gedimar Passos, ambos ligados ao PT, nos trinta dias que antecederam a apreensão dos R$ 1,7 milhão que seria usado na compra do documento. Com isso, a Polícia Federal (PF) pretende descobrir quem manteve contato com os dois suspeitos.

Polícia Federal deve investigar 200 mil saques

A Polícia Federal terá que investigar pelo menos 200 mil saques acima de R$ 10 mil e realizar 650 quebras de sigilos telefônicos para chegar à origem dos R$ 1,116 milhão e US$ 248,8 mil apreendidos no dia 15 de setembro, em um hotel de São Paulo, com representantes do PT.

De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, até o momento, a Justiça Federal quebrou o sigilo de agências bancárias do Bradesco, BankBoston, Banco do Brasil e Safra nas praças São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília."As agências foram escolhidas porque cintas de papel com o nome delas separavam os maços de notas em reais do dinheiro apreendido", afirma o jornalista Hudson Corrêa, autor da reportagem.

Segundo o jornalista, somente as agências do Bradesco enviaram informações sobre os 200 mil saques. "Em relação aos dólares, a PF descobriu que dos US$ 248,8 mil cerca de US$ 109,8 mil entraram legalmente no Brasil por meio do banco Sofisa, de São Paulo. O banco revendeu os dólares a casas de câmbios que repassaram o dinheiro a outras corretoras", diz.

Ministério Público pede quebra de sigilos de Freud

O Ministério Público Federal  vai pedir a quebra dos sigilos bancário e fiscal do ex-assessor da Presidência da República Freud Godoy, de sua mulher, Simone Messeguer Godoy, e da empresa dela, Caso Sistemas de Segurança. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, o Ministério Público quer saber um pouco mais sobre a movimentação financeira e as operações tributáveis declaradas ao Imposto de Renda.

Especula-se que Freud tenha sacado R$ 150 mil em dinheiro, em setembro deste ano, por meio da empresa Caso. O investidor Naji Nahas teria, então, feito um crédito em favor do ex-assessor da Presidência no valor de R$ 396 mil.

Em depoimento à PF, o agente de Polícia Federal aposentado Gedimar Passos mencionou que Freud estaria envolvido na negociação para pagar R$ 1,75 milhão pelo dossiê contra  políticos tucanos. Freud deixou o cargo na Presidência tão logo seu nome foi envolvido no caso. Os advogados de Gedimar dizem que ele só apontou o nome de Freud em seu primeiro depoimento, porque foi coagido.

Lula afirma que não seria beneficiado com dossiê

O presidente Lula encaminhou na quarta-feira (12) ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) defesa de 35 páginas contra representação da coligação do candidato tucano à Presidência da República, Geraldo Alckmin.

A oposição tinha alegado que Lula deveria ser implicado no caso da compra de um dossiê contra o governador eleito de São Paulo, José Serra (PSDB), já que muitos petistas ligados a ele estavam envolvidos no escândalo.

Na defesa, Lula expôs que não teria interesse em forjar um dossiê contra Serra, pois quem seria beneficiado com o documento "não seria o candidato à Presidência da República, mas qualquer candidato ao governo do estado de São Paulo".

Quanto às acusações de que parte dos R$ 1,7 milhão que seria usado para a aquisição do material teria partido de um caixa 2 da campanha à reeleição do petista, o texto afirma que o candidato "não despendeu um centavo sequer que não esteja contabilizado".

O presidente licenciado do PT, Ricardo Berzoini, e o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, também apresentaram nessa quinta-feira defesas contra as acusações da coligação de Alckmin de participarem ou atrasarem as investigações do caso.

Abel só será ouvido na semana que vem

Assim como ocorreu com o presidente licenciado do PT, Ricardo Berzoini, o depoimento do empresário paulista Abel Pereira, que estava marcado para ontem (13), também ocorrerá na próxima semana.

Abel foi apontado por Luiz Antonio Trevisan Vedoin como sendo o operador do esquema dos sanguessugas no Ministério da Saúde durante a gestão do prefeito de Piracicaba (SP), Barjas Negri (PSDB). Além disso, o empresário também é suspeito de envolvimento no caso do dossiê contra o governador eleito de São Paulo, José Serra (PSDB).

O depoimento, entretanto, ainda não tem data e local definidos.


ATUALIZADA EM:14/10/2006


Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 12h33
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Alckmin acusa Lula de fazer "campanha do medo"
Congresso em Foco

Em campanha em João Pessoa (PB), o candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, disse ontem (sexta, 13) que Lula (PT) patrocina uma "campanha do medo" contra sua candidatura.

"Eles criaram a Mentirobrás, porque é uma mentira atrás da outra", afirmou Alckmin, negando que privatizará o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, os Correios e a Petrobras. O tucano também prometeu "manter e aumentar" o programa Bolsa Família, que ele já criticou.

"No Brasil inteiro, os nossos adversários ficam com esta mentira de que vamos acabar com o Bolsa Família. Isso é um absurdo", afirmou. "Vamos manter e aumentar esse programa. Tem gente que precisa e não está recebendo [o Bolsa Família]".

Quanto à privatização, declarou, referindo-se ao BB, à CEF, à ECT e à Petrobras: "Vamos valorizar essas instituições, elas não podem ser objeto de aparelhamento. Vamos valorizar seus funcionários, valorizar o concurso e a carreira, porque este é o bom caminho", disse.

Para Alckmin, o presidente faz "jogo sujo": "Fico triste de ver o próprio candidato Lula dizer essas coisas sem a menor veracidade. Como eles não têm muito o que mostrar, ficam nessa campanha de criar medo. É uma campanha de boatos, fofocas, mentiras, tudo para enganar o eleitor".

As suspeitas do PT

Lula lançou suspeitas sobre supostos planos privatistas do seu adversário em várias oportunidades nos últimos dias, inclusive no debate da Bandeirantes do último domingo (8). Dois dias antes, ao participar de comício em Salvador, o presidente afirmou: "A loucura deles é vender o patrimônio público. Se não ficarmos espertos, eles vão querer privatizar o Banco do Brasil, a Caixa, a Petrobras..."

A campanha petista também tem usado as declarações de Yoshiaki Nakano, cotado para ser ministro da Fazenda em um eventual governo Alckmin, para colocar em dúvida o futuro dos programas sociais se o PSDB vencer as eleições presidenciais. Nakano defendeu a necessidade de um forte ajuste fiscal, correspondente a R$ 60 bilhões, no primeiro ano de mandato.

O coordenador da campanha de Lula, Marco Aurélio Garcia, disse que o resultado seria recessão e falta de dinheiro para os investimentos sociais. O valor citado pelo assessor econômico de Alckmin, enfatizou ele, representa três anos do orçamento do Bolsa Família. Em entrevista publicada neste sábado pelo jornal Folha de S. Paulo, a ex-prefeito Marta Suplicy vai além. Afirma que o ajuste revelado por Nakano "não seria possível sem acabar com o Bolsa Família, sem corte na saúde, na educação".



ATUALIZADA EM:14/10/2006


Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 12h32
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ELEIÇÕES 2006 / LEGISLATIVO

Folha de São Paulo

Com a mulher, Collor visita o Senado vazio

Com cabelo pintado de preto e o nome de Caroline tatuado no pulso, o senador eleito por AL não quis falar de política

Quando questionado sobre como se sentia voltando à Casa que, há 14 anos, cassou seu mandato de presidente, ele riu alto e se despediu


LETÍCIA SANDER
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O ex-presidente Fernando Collor de Mello, 57, fez ontem sua primeira visita como senador eleito pelo Estado de Alagoas ao Congresso Nacional.
De mãos dadas com a mulher, Caroline Medeiros, 29 anos, ele visitou o plenário da Casa, vazio um dia após o feriado, e esteve em um gabinete que pode vir a ser seu, o do senador Eduardo Siqueira Campos (PSDB-TO).
Cercado por quatro seguranças, não fez nenhum comentário político, mas deu autógrafo e cumprimentou visitantes do Congresso. Quando questionado sobre como se sentia voltando à Casa que, há 14 anos, cassou seu mandato de presidente, ele riu alto e se despediu dos jornalistas que o seguiam. Ele também sorriu quando questionado sobre apoio à reeleição do presidente Lula.
De cabelos pintados de preto e o nome da mulher tatuado no pulso esquerdo, ele disse aos jornalistas "vim ver vocês", sobre o motivo da visita. Cercado por fotógrafos e cinegrafistas, brincou: "Ai meu Deus do céu (...) quero ver vocês acompanhando as corridas", referindo-se à maratona de exercícios que fazia quando presidente.
Segundo o diretor-geral do Senado, Agaciel Maia, que o recepcionou, Collor manifestou o interesse de morar em um dos apartamentos cedidos a senadores, na Asa Sul da capital. A Casa da Dinda, onde ele morou como presidente, poderá ser usada nos fins de semana. "Ele fez mais um tour, para conhecer o espaço físico", disse Maia.
Único parlamentar que chegou a conversar com Collor, o senador Eduardo Siqueira Campos descreveu o ex-presidente como um homem "sereno, equilibrado", que não aparenta querer vingança.
Campos votou pelo impeachment de Collor. Ele não se reelegeu. Por isso, Collor poderá vir a ocupar o seu gabinete.




Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 12h25
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Marcelo Coelho

Folha de São Paulo

Privatista?

NÃO DÁ PARA esperar racionalidade e clareza argumentativa num programa eleitoral, mas a propaganda de Lula neste segundo turno pelo menos apresenta, em meio às marchinhas e aos acenos de sempre, alguns números concretos, algumas comparações entre seu governo e o de Fernando Henrique.
É pouco, e vem cercado de lorotas: a mais espantosa é a de que foi Lula quem acabou com a inflação. Acontece que os marqueteiros do PT acabam parecendo luminares de Princeton perto do que diz a propaganda de Alckmin.
É vexaminoso, para quem se apresenta como a opção mais racional e técnica, o vazio de idéias e argumentos do candidato tucano, em sua primeira aparição no horário eleitoral.
Os locutores anunciam, em triunfo, que no debate da Bandeirantes "Geraldo apresentou as melhores propostas". Saúde? Vamos melhorar a saúde do povo.
Emprego? Nosso compromisso será com a geração de empregos. Segurança pública? Seremos firmes nessa questão.
De concreto, apenas a idéia, que não poderia ser mais demagógica, de vender o Aerolula para construir hospitais. Embora Alckmin tenha finalmente partido para o ataque ao desregramento ético do PT, no debate da Bandeirantes, a sensação de fraqueza programática na candidatura tucana acentua-se a cada dia.
Quando os petistas fazem críticas ao governo FHC, Alckmin tem uma resposta pronta: "eles estão com os faróis voltados para trás, temos de olhar para a frente, para o futuro". Não é um argumento válido: nada mais natural do que examinar o que a coalizão PSDB-PFL fez de concreto no passado, para avaliar a consistência de suas promessas atuais.
Nenhum dos candidatos pode, entretanto, questionar a fundo o adversário. Quando diz que o importante é criar empregos, Alckmin provavelmente quer sugerir que o Bolsa Família é uma solução paliativa e insuficiente. Mas não será louco, a essa altura, de criticar o programa.
Quando colam em Alckmin o rótulo de "privatista", operação ideológica que aliás alcança êxito, os petistas evitam o termo que realmente queriam utilizar: "neoliberal". Mas como chamar o adversário de neoliberal quando eles próprios seguem a mais estrita ortodoxia monetária? Como reclamar do seu conservadorismo religioso, se se aliam à Igreja Universal?
O PT também poderia levantar a questão dos direitos humanos. Matanças de bandidos não são exatamente um fenômeno em que o governo Alckmin possa se orgulhar de ter mãos limpas. Só que falar em direitos humanos, hoje, é suicídio eleitoral.
Mais fácil centrar fogo, então, no "privatismo" de Alckmin. Bem, ele só promete privatizar o Aerolula. Fotos da aeronave nababesca circulam na internet. Merecíamos coisa melhor. Só falta ser esse o grande tema das eleições presidenciais.


MARCELO COELHO é colunista da Folha



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 12h22
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CLÓVIS ROSSI

Folha de São Paulo

A miséria também do debate

SÃO PAULO - A "experiência" de Fernando Collor, louvada pelo presidente Lula, parece ter sido importada pela campanha lulo-petista. Lembra-se de 1989, quando Collor fez o terrorismo de dizer que, se Lula ganhasse, a classe média teria que dividir seus apartamentos com os pobres?
Bom, a propaganda que diz que Geraldo Alckmin, se eleito, acabaria com o Bolsa Família tem idêntico DNA. Mesmo que Alckmin quisesse fazê-lo, quisesse aumentar para cem anos a idade mínima de aposentadoria ou outras maldades do gênero, nem ele nem nenhum outro presidente (nem Margaret Thatcher, tida como símbolo-mór do liberalismo) teriam coragem de fazê-lo. Programas que rendem votos jamais são cortados pelos políticos (Thatcher, aliás, até aumentou o "sopão para os pobres").
De todo modo, o terrorismo lulo-petista pôs o Bolsa Família no centro da campanha, o que ajuda a desnudar as misérias da pátria. Vejamos o que é o Bolsa Família pela palavra de frei Betto, lulista convicto, apesar de meio decepcionado, e com toda uma história de luta a favor dos miseráveis: Em entrevista ao jornal italiano "Corriere della Sera", reproduzida dias atrás por Merval Pereira (colunista de "O Globo"), frei Betto disse que o Bolsa Família é "assistencialismo puro, que não muda a estrutura social e faz recair rapidamente na miséria".
Só falta agora o lulo-petismo espalhar que Betto quer acabar com o Bolsa Família. Ninguém que não seja um tarado completo quer, porque, na miséria tupiniquim, é vital. Mas os que ainda preservam a capacidade de pensar acima da propaganda reconhecem a sua gritante insuficiência.
Mas o Brasil é tão miserável, especialmente no debate político, que não se avança um milímetro no que é mais importante: como mudar a estrutura social de forma a superar o assistencialismo.


crossi@uol.com.br



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 12h21
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VAGUINALDO MARINHEIRO

Folha de São Paulo

O espectro de HH

HELOÍSA Helena sai desta eleição com três derrotas já computadas: 1) obteve 6,6 milhões de votos (6,85% do total de válidos), o que é pouco para o que foi chamado de "fenômeno HH" e para quem chegou a sonhar com um segundo turno; 2) seu PSOL não resistiu à cláusula de barreira e deve perder o pouco de visibilidade que tem; 3) a senadora é agora acusada por seus pares de autoritarismo por não ter discutido a opção do partido pelo voto nulo no segundo turno. Apesar de tudo isso, seu espectro continua a rondar a campanha presidencial.
Lula, por exemplo, estaria com uma vestimenta mais adequada se usasse jeans e blusa branca quando brada que Alckmin irá privatizar o que resta das estatais do país.
Esse discurso é típico da senadora, não do atual presidente, que repete a política econômica dos tucanos e hoje defende as estatais não por razões ideológicas, mas porque servem para acomodar petistas sem emprego e para dar uma mãozinha nas campanhas eleitorais, seja de forma positiva, como a auto-suficiência de combustível alcançada pela Petrobras, seja de forma desastrosa, como a participação de Expedito Veloso, do BB, e de Jorge Lorenzetti, do Besc, na falcatrua do dossiê contra tucanos.
Alckmin, por sua vez, adotou o estilo HH no debate realizado pela TV Bandeirantes. Em meio aos números que sempre gostou de citar, incluiu adjetivos e mais adjetivos em seu discurso contra o petista.
Do mesmo lado tucano, Yoshiaki Nakano, um dos principais conselheiros econômicos de Alckmin e nome cotado para um eventual ministério, perdeu a chance de ficar calado num momento crucial da campanha e falou em intervenção no câmbio e em controle na entrada de capital estrangeiro no país.
Foi discurso de tucano, mas parecia ecoar algum pronunciamento da candidata do PSOL. Com essas mudanças de atitudes, Lula e Alckmin buscam atrair todos os tipos de votos, mas principalmente os da chamada esquerda, que continua indecisa por se sentir traída pelo PT no poder e por ainda guardar ojeriza pelos anos do PSDB no governo.
É justamente aí que está parte do eleitorado de HH. A outra parte, composta de votos de protesto, não deve ir para nenhum candidato.
Por enquanto, Lula e Alckmin estão empatados na disputa pelo espólio de Heloísa Helena. Segundo o último Datafolha, 39% dos que votaram na senadora no primeiro turno ficam com o tucano agora. Já 36% optam pelo petista.
Mas Lula precisa conquistar menos votos para ganhar e, se for o vencedor no dia 29, será mais uma derrota da senadora. Ela atacou tudo e todos no primeiro turno, mas usou mais tempo, munição e os "melhores" adjetivos contra "sua majestade barbuda".


VAGUINALDO MARINHEIRO é secretário de Redação da Folha.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 12h20
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A disputa eleitoral não empolga os debates para proposta de governo, apenas discussão sobre moralidade, o Geraldo Alckmin sempre atacado o presidente, mesmo não tem projeto alternativo na área econômica e social da nação, o candidato Luiz Inácio Lula sempre negado as roubalheiras do PT, sua faltar de projeto governamental.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 23h28
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   Esquentando os tamborins

No horário eleitoral, o pugilato do debate sumiu das versões de Lula e Alckmin

Dora Kramer / Estado de São Paulo

A estréia dos programas eleitorais de rádio e televisão dos finalistas da eleição presidencial mostrou o presidente Luiz Inácio da Silva e Geraldo Alckmin ainda receosos de partir para a ofensiva pesada contra o adversário. Como se estivessem ambos esperando para ver a extensão e o peso do passo do oponente.

Os dois usaram o debate da TV Bandeirantes, mas nas versões que mais lhes convinham. E, pelo visto, nem à campanha de Lula nem à de Alckmin era conveniente explorar o clima quente de combate intenso em que transcorreu o programa.

Lula e seus correligionários passaram os últimos dias posando de agredidos, mas não levaram isso para o horário gratuito. Nada de vitimização, ao contrário.

Alckmin e seus aliados a semana toda celebraram a vitória da veemência sobre a apatia, mas ontem optaram pela moderação. Deixaram às falas de 'populares' a apreciação positiva sobre o desempenho do candidato, que praticamente limitou-se ao uso da frase síntese sobre a origem do dinheiro encontrado com os petistas para pagar o dossiê da discórdia.

O programa não reproduziu os momentos mais fortes dos ataques de Alckmin e o fez com receio de transmitir excesso de agressividade do candidato. Segundo análise interna, o confronto pesado pode funcionar na hora do embate, mas fora daquele contexto denota arrogância e, sobretudo, grosseria.

De qualquer modo, os tucanos mostraram, em tela dividida, a fisionomia irritada e o nervosismo do presidente. Cenas cuidadosamente, como de resto não poderia deixar de ser, banidas do programa de Lula.

Na edição do programa petista, apareceu para o grande público que não viu o embate, mas verá duas vezes por dia o programa eleitoral, o estadista propositivo e professoral, 'ensinando' ao oponente como se governa um país.

A título de vacina, Lula tocou no assunto do dossiê, mas como se fosse ele o maior interessado em descobrir quem urdiu uma trama para ele altamente prejudicial, numa inversão dos fatos cuja repetição muito possivelmente vai se sobrepor à realidade, caso não apareçam dados novos daqui até a eleição.

De um modo geral, na comparação dos dois primeiros programas, o de Alckmin foi melhor. No primeiro turno, o de Lula ganhou em todos os itens: forma, conteúdo, originalidade (a representação étnica dos apresentadores) e trilha sonora.

Agora, o tucano deixou de lado a maçante apresentação de credenciais do 'moço bom de Pindamonhangaba' e, na estréia, usou melhor o tempo. Enquanto Lula gastou muitos minutos com a reprodução de falas do debate - talvez na suposição de que Alckmin fosse se valer desse recurso - e no mais repetiu o roteiro anterior, o tucano exibiu de tudo um pouco: fala direta ao espectador, promessas, cenas de dinamismo administrativo, depoimentos 'populares', sem deixar de recorrer ao trunfo da pergunta: 'De onde veio o dinheiro do dossiê?'

Nas trilhas sonoras de encerramento dos dois programas, os resumos dos conceitos a serem transmitidos ao eleitorado: Lula apela que o deixem trabalhar e completar sua obra e Alckmin aposta na comparação de condutas, ressaltando atributos como decência e confiabilidade.

Ausências bem marcadas nos primeiros programas: os apoios políticos tão cobiçados e procurados nos primeiros dias após o término do primeiro turno.

Muita coisa ainda está para ser mostrada e explorada nos horários eleitorais, ontem só foram exibidos aperitivos típicos da etapa inicial em que se esquentam os tamborins.

De qualquer modo, fica claro: no espaço diário de rádio e televisão os candidatos não querem se mostrar de muita briga, muito menos exibir as companhias com as quais andam na política. Exatamente o contrário do que fazem no cotidiano da campanha.

Neste aspecto, empatam no quesito artificialismo. E, nele, não vence necessariamente o melhor nem o mais convincente, mas o que contrata o produtor mais competente.

Batata

Na avaliação dos colegas - governistas e oposicionistas - de Aloizio Mercadante no Senado, seja qual for o resultado da eleição, chegue aonde chegar (se chegar a algum lugar) a investigação sobre o dossiê contra os tucanos, a segunda parte do mandato dele será marcada pela adversidade.

No mínimo, Mercadante está fadado a uma atuação muito discreta.

Recado

No oficial, as relações continuam boas. No paralelo, porém, o governo já fez chegar às Organizações Globo que o presidente Lula atribui a perda da oportunidade de ganhar a eleição no primeiro turno à atuação da empresa - aí incluídos todos os seus veículos - nos últimos dias antes da votação.

Máquina

Funcionários públicos que divulgam mensagens eleitorais para contribuir com a campanha de Lula via internet deveriam tomar o cuidado de usar e-mails particulares. Luciene.cordeiro@saude.gov.br e arone.alves@caixa.gov.br, por exemplo, não prestam um bom serviço à candidatura do presidente.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 12h08
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Políticas sociais no Brasil: a rara continuidade

Valor Econômico

Por Marcio José Vargas da Cruz e Huáscar Fialho Pessali
13/10/2006

O professor Ricardo Abramovay, em 16 de agosto neste jornal, discutiu de forma oportuna o processo de aprimoramento do Pronaf, no artigo "Combate à pobreza: chegou a hora da qualidade". Ainda no tema de continuidade e ajustamento de políticas públicas, é interessante observar nesta eleição o tratamento dado às políticas sociais. Parece haver certa convergência para o aprimoramento de alguns dos mecanismos em vigor, indicando um raro processo de continuidade.

Não vamos discutir neste curto espaço a possibilidade, ao que parece remota, de um projeto de desenvolvimento diferente para o país. Queremos apenas considerar que, a permanecer a visão corrente, temos a rara oportunidade de avaliar a continuidade de programas sociais em vigência. Dentre eles, um dos mais visíveis é o Bolsa Família.

A história do Bolsa Família nos remete a alguns programas de transferência de renda, com destaque para o Bolsa Escola, implementado no governo Fernando Henrique e fruto da experiência iniciada pelo então governador do Distrito Federal, Cristovam Buarque. O governo do presidente Lula trouxe um discurso de prioridade ao combate à fome e implementou o programa Fome Zero. Diante de problemas na execução deste programa, decidiu-se incorporá-lo à estrutura já estabelecida de políticas de transferência de renda, buscando integrar todas as iniciativas num único cadastro - o do Bolsa Família.

Um resultado interessante é que os dois candidatos que disputam o segundo turno das eleições presidenciais (Lula e Alckmin), além de Cristovam Buarque, que já saiu do páreo, se vêem identificados com o Bolsa Família, seja por ações individuais ou dos partidos que representam, e o tratam como algo que deve ser mantido e melhorado. E diz a racionalidade política que a paternidade de programas é algo importante de se registrar. Logo, a manutenção de um mecanismo de transferência de renda aos menos favorecidos, sob a forma monetária, parece ser consenso entre as propostas apresentadas como meio de auxiliar na provisão de condições mínimas de subsistência.

Esta atitude por parte dos candidatos pode parecer óbvia. Não o seria, entretanto, se recuperássemos um histórico mais longo de políticas sociais no Brasil. Grande parte dos programas sociais voltados à transferência de alguma forma de renda se caracterizavam pela dispersão, não necessariamente priorizavam os mais pobres e tinham vida relativamente curta.

Existe um debate amplo, academicamente fundamentado, que sugere ser a transferência de renda sob a forma monetária à população mais pobre um mecanismo mais eficiente do que a transferência de cupons de alimentação, como era a proposta inicial do Fome Zero e de outras alternativas já experimentadas. Se tal sugestão continua persuasiva, cabe ao próximo governante melhorar, por um lado, os mecanismos de incentivo e de contra-partida (como a freqüência das crianças nas aulas e a exigência de exames pré-natais para gestantes) e, por outro, os processos de monitoramento e avaliação do programa, visando minimizar fraudes e disponibilizar mais informações sobre os beneficiários. Isto permitirá que análises críticas mais consistentes possam ser feitas com o intuito de flexibilizar algumas limitações do Bolsa Família. É possível e desejável que se use a organização existente também para ampliar a capacidade decisória das famílias beneficiadas através, por exemplo, de programas de instrução e capacitação integrados a ações de incentivo à atividade produtiva local, e assim induzir mudanças estruturais. Isto traz a preocupação em criar mecanismos de estímulo à não dependência no longo prazo do beneficiado para com esta transferência.

Próximo desafio do Bolsa Família é o de integrar-se a ações que estimulem mudanças estruturais nas famílias beneficiadas

Quisera dentro de 20 anos retomarmos este assunto, analisando o avanço de um mesmo programa de transferência de renda às pessoas desfavorecidas do Brasil. Seria interessante verificar que um mecanismo de assistência temporária à parcela mais pobre da população sobreviveu sem ruptura a várias transições políticas e conseguiu servir a mudanças estruturais positivas. Claro, a simples continuidade de um determinado programa não garante estes avanços. Entretanto, eles serão muito mais difíceis de se alcançar diante de rupturas sistemáticas.

Não é raro no Brasil que se interrompa um determinado programa em função de uma racionalidade política, seja para assegurar a paternidade de uma tentativa de solução do problema ou para indicar uma ruptura com o antecessor. Muitas vezes as "novas" propostas em grande parte replicam o que já estava em andamento. Há custos sociais nessa prática. No caso de políticas sociais com amplo acesso, os custos de transição de uma mudança podem ser significativos. Por exemplo, gasta-se tempo e recursos na consolidação de uma rede de instituições confiáveis para que uma família pobre de uma região periférica tenha acesso aos benefícios propostos. De um lado, a família precisa entender e se adaptar ao novo sistema, bem como à nova forma de acompanhamento. De outro lado, o programa precisa se preparar para colher e manusear informações que ajudem no acompanhamento da família beneficiada e na melhoria das ações, especialmente as que propiciem maior independência e que levem à inelegibilidade do beneficiado.

Nesta perspectiva, o próximo desafio do Bolsa Família é o de integrar-se a ações que estimulem mudanças estruturais na situação das famílias beneficiadas. Isto a princípio permitiria uma transição mais suave para a diminuição de sua importância - se o que se quer é um programa de assistência inicial ou transitória que convirja para soluções estruturantes. Afinal, um objetivo maior deve ser a implosão do programa por queda substantiva no número de pessoas elegíveis. Trata-se de um mecanismo importante, mas complementar à questão fundamental para romper com a miséria ainda existente no Brasil, que é o crescimento econômico qualificado - aquele que absorve a mão-de-obra desempregada e diminui as desigualdades de renda. E aí um tema central a se discutir passa a ser a condução da política econômica. Essa discussão não nos cabe aqui, mas não se pode deixar de notar que taxas de crescimento da renda per capita iguais às das últimas duas décadas implicariam em fortes restrições à melhoria do bem estar da população. Esperamos que neste caso não haja continuidade.

Marcio José Vargas da Cruz é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná - marciocruz@ufpr.br.

Huáscar Fialho Pessali é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná - pessali@ufpr.br.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 11h10
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Os temas econômicos da campanha eleitoral

Valor Econômico

Claudia Safatle
13/10/2006

Três temas emergiram no debate eleitoral do segundo turno, ao lado da questão ética : o ajuste fiscal, a política cambial e as privatizações. No primeiro, os dois candidatos - Lula, do PT, e Alckmin, do PSDB - convergem, embora divirjam na aparência; no segundo, divergem mas não tanto; e o terceiro vem sendo tratado pelo PT, que nas duas primeiras questões passou por um processo de evolução, como uma ameaça, uma denúncia contra o candidato do PSDB.

Tanto Guido Mantega, ministro da Fazenda, quanto o economista Yoshiaki Nakano, que tem papel relevante na elaboração do programa econômico de Geraldo Alckmin, já disseram que a política fiscal deve ser pautada pelo corte nos gastos públicos e ambos os candidatos têm como objetivo zerar o déficit nominal das contas públicas (que inclui a diferença entre receitas e despesas correntes e a conta dos juros da dívida) ao final dos quatro anos de mandato.

O déficit nominal totaliza hoje cerca de 3,54% do PIB, ou seja, pouco mais de R$ 60 bilhões. A rigor, isso não significa que o próximo governo terá que fazer um corte de gastos nessa exata proporção. O raciocínio que ampara esse objetivo é que ao anunciar um programa fiscal crível de longo prazo, os mercados antecipariam seus efeitos benéficos, abrindo espaço adicional para uma queda mais acentuada da taxa de juros, o que aumentaria a possibilidade de crescimento econômico, formando, assim, um círculo virtuoso que levaria à zeragem do déficit nominal sem grandes violências.

A despeito de tudo isso, porém, o novo presidente da República terá que patrocinar um corte de bom tamanho nas despesas correntes assim que tomar posse, sob pena de não ter como cumprir a meta de superávit de 4,25% do PIB em 2007. Embora esse seja um tema difícil de ser tratado durante uma campanha eleitoral sem que sobre ele se faça terrorismo, ambos os lados - PT e PSDB - estão cientes de que não escaparão dele após o resultado do segundo turno das eleições presidenciais. Mas isso não significa que seja necessário um corte de R$ 60 bilhões no primeiro ano de mandato. Este nem é factível, porque as despesas discricionárias, que representam o somatório do gasto que não tem receitas vinculadas por lei, podendo, portanto, ser objeto da tesoura, é de apenas R$ 90 bilhões.

A questão cambial é delicada e o pior que se pode fazer é sugerir mudanças no regime de taxas flutuantes. O PT aprendeu que quanto mais sólida a economia de um país, mais valorizada será a sua moeda. Mantém o sistema de flutuações sujas, com intervenções sistemáticas do Banco Central no mercado de câmbio e pretende continuar assim, acumulando reservas cambiais. Admite mexer na estrutura tributária de vários setores para compensar a perda da desvalorização da moeda como instrumento de competitividade internacional. E avalia que quando resolvida a maior distorção da economia - os elevadíssimos juros domésticos - será reduzida a diferença entre estes e os juros externos, removendo um dos grandes incentivos ao ingresso de dólares, que é o ganho de arbitragem.

Sanear bancos federais custou R$ 62 bilhões

Paralelamente, o círculo virtuoso que se iniciaria com a adoção de um programa fiscal de longo prazo tornaria a economia brasileira ainda mais atraente ao capital estrangeiro. A avaliação do PSDB não difere muito disso e as equipes de economistas de ambos os candidatos sabem que podem atuar de forma mais lateral, retirando entraves logísticos e reduzindo tributos, além de prosseguir no processo de acumulação de reservas cambiais que o Banco Central tem feito de forma acentuada desde abril. Em debate na FGV do Rio, terça-feira, Nakano sugeriu taxa de câmbio administrada a partir de um fundo de estabilização criado no Tesouro Nacional para isso e, se necessária, a adoção temporária de controle de fluxo de capitais. Idéias que ele tem defendido há tempos e que não são consensuais entre os economistas envolvidos na campanha de Alckmin.

Assim, até onde se pode enxergar, não há divergências marcantes entre os dois programas que venham resultar em rupturas no que se refere a esses dois temas, fiscal e cambial.

No primeiro debate, Lula acusou Alckmin de, se eleito, querer privatizar o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, a Petrobras e os Correios. Um tema ameaçador para os funcionários dessas companhias e que foi desmentido pelo candidato do PSDB. Lula tem insistido nessa tecla como um mantra para assustar eleitores incautos. É bom deixar claro, porém, que a privatização não é um pecado mortal nem venial e deveria, sim, ser objeto de discussão política tendo como fundamento uma posição clara sobre que papel o Estado deve desempenhar.

O programa de saneamento dos bancos federais custou ao Tesouro e, portanto, aos contribuintes, R$ 62,4 bilhões, de 2001 para cá. Foram R$ 54,7 bilhões para a Caixa Econômica Federal, R$ 13,15 bilhões para o Banco do Brasil, R$ 2 bilhões para o Banco do Nordeste e R$ 1,3 bilhão para o Banco da Amazônia. A cifra equivale a todo o déficit nominal do setor público, é mais de quatro vezes o orçamento de investimentos em infra-estrutura previsto para 2007 (R$ 13,5 bilhões) e quase o triplo da receita obtida com a privatização das 12 empresas da antiga Telebrás (R$ 22 bilhões).

Está certo que esse "rombo" não foi produzido só por administração temerária dos bancos federais que traziam, também, problemas de uma economia em frangalhos e em estado de hiperinflação. Mas a concessão de créditos por critérios políticos, sem a menor preocupação com os riscos, a ocupação das diretorias dessas instituições por vínculos partidários, negligenciando a boa formação técnica, são males que a sociedade paga sem saber, por meio de programas cujo custo não é transparente. Pode-se chegar à conclusão de que é melhor ter do que não ter bancos públicos, mesmo sabendo que vira e mexe seus dirigentes são flagrados cometendo irregularidades financeiras ou quebrando sigilo de correntistas, como ocorreu este ano na CEF e no BB. Mas é preciso ter ciência de que estes, se ajudaram no desenvolvimento, também já custaram muito ao país.

Claudia Safatle é diretora de redação adjunta e escreve às sextas-feiras



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 11h08
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Renata Lo Prete

Folha de São Paulo

A curva pró-Lula

ASSIM COMO se revelou infundada a expectativa oposicionista de que o desempenho de Alckmin no debate pudesse reativar o movimento ascendente que o colocou no segundo turno, também carece de base real a teoria lulista segundo a qual o programa de domingo passado seria o responsável pela ampliação da vantagem do presidente, detectada pelo Datafolha e endossada ontem pelo Ibope.
Vá lá que o tucano tenha incorrido em algum exagero no tom escolhido para se dirigir ao adversário, impressão potencializada pelo contraste com a imagem polida que projetou ao longo de sua trajetória política. Ainda que não admita de público, a própria campanha identificou esse estranhamento, especialmente nos dois primeiros blocos, em pesquisa com grupos que acompanharam o programa.
No essencial, porém, o debate serviu para o que geralmente serve esse gênero de confronto televisivo: cristalizar percepções prévias do eleitor. As respostas à bateria de perguntas do Datafolha sobre atributos dos candidatos mostram que qualidades e defeitos conferidos a Lula e a Alckmin se acentuam na ótica dos eleitores que assistiram ao programa.
Assim, o desempenho de Alckmin tende a ser considerado "firme" por quem já o aprovava e/ou desaprovava Lula e "autoritário" ou mesmo "fascista" -na propaganda do ministro Tarso Genro- por quem está com o presidente e não abre.
Debate serve também como matéria-prima para o horário gratuito, no qual seu conteúdo é editado ao gosto do freguês. Ontem, na hora do almoço, Lula estreou com um condensado em que não havia vestígio de seu atordoamento inicial, evidente até para aliados presentes no estúdio da Band, com as perguntas do adversário.
Pelo contrário, parecia ter todas as respostas. O "clipe" de Alckmin, por sua vez, manteve o bordão principal de sua ofensiva ("Lula, de onde veio o dinheiro para pagar o dossiê fajuto?"), mas deixou de fora outros momentos de cobrança em troca de enfatizar o que não havia sido a tônica do candidato no programa: dizer o que fará se chegar à Presidência da República.
Menos do que um ponto de inflexão, contra Alckmin ou a favor de Lula, o primeiro debate do segundo turno aconteceu dentro de uma onda que já vinha favorável ao petista -vide o Datafolha anterior-, basicamente devido ao esfriamento do escândalo do dossiê. Completando o quadro de dificuldades de Alckmin, sua campanha se viu obrigada pelo discurso do adversário a recuar para uma atitude defensiva.
Neste momento, gasta boa parte do tempo negando que vá privatizar, cortar benefícios sociais e seqüestrar crianças.
A esperança de Alckmin é que a pergunta-mãe do caso do dossiê volte para o centro do noticiário.


RENATA LO PRETE é editora do Painel



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 11h00
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NELSON MOTTA

Folha de São Paulo

Chico x Caetano

RIO DE JANEIRO - "No fundo, sempre existiu no PT a idéia de que você ou é petista ou é um calhorda. Um pouco como o PSDB acha que você ou é tucano ou é burro", Chico Buarque explodiu numa gargalhada.
São gritantes os defeitos e semelhanças dos dois partidos e seus chefes e militantes. Sem falar no aspecto mafioso e quadrilheiro, inerente à política brasileira, parecem mais torcidas organizadas de futebol, com sua intolerância, fanatismo e cegueira. É mesmo uma temeridade colocar nossas esperanças e nosso destino nas mãos dessa gente. Mas é o que nos é dado escolher. Bem, para quem viveu na ditadura, poder escolher entre o ruim e o pior já é um avanço.
O PT foi contra o Plano Real, dizia que era eleitoreiro, armação da direita. O PSDB nega o sucesso do Bolsa Família e o chama de populismo e demagogia eleitoral. Na oposição, o PT sabotou sistematicamente bons projetos do governo FHC. Fora do poder, os tucanos dedicam a maior parte de seu tempo e ação para investigar, agredir e destruir o lulo-petismo.
É melhor escolher entre Chico e Caetano. Mais uma vez, os dois amigos estão em lados opostos. Tanto em seus novos discos como nas opiniões políticas. Chico se aprofundou na complexidade harmônica e melódica de suas canções e adensou a sua poesia. Caetano, aos 63 anos, deu um salto no escuro com um disco de rock, duro e cru, cheio de ironias e provocações, cercado por poucos e jovens músicos, cuspindo fogo. Dois discos poderosos, corajosos e honestos.
Chico vota Lula, com ressalvas, mas bons motivos. Caetano pode ser Alckmin, ou não, com ótimas razões. O melhor é que Chico não tem os defeitos de caráter e conduta do PT e Caetano pode ser acusado de tudo menos de ser "de direita" ou tucano em cima do muro.




Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 10h58
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VALDO CRUZ

Folha de São Paulo

Risco dos riscos

BRASÍLIA - Fator decisivo na definição do segundo turno da corrida presidencial, o "dossiêgate" é uma operação tabajara com paternidade conhecida: o petismo. Mas segue o mistério de quem a financiou.
Bem, um mistério para boa parte da população, aquela que irá às urnas escolher entre Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin para ser o próximo presidente do país. Nem tanto mistério assim para gente da cúpula do governo e do PT.
Em conversas com ministros e parlamentares petistas fica claro que eles sabem mais do que dizem. Muito mais. Alguns até reconhecem esse fato, mas alegam falta de provas para declinar nomes.
Argumento até compreensível, mas não um impeditivo para que essas suspeitas sejam repassadas aos agentes da Polícia Federal. Foram repassadas? Não há sinal de que tenham sido, dada a demora na elucidação do caso do dossiê.
Até prova em contrário, ficamos livres para interpretar tudo isso como uma blindagem da figura presidencial. Evita-se jogar luz sobre a origem do dinheiro no aguardo do dia da votação e de que Lula ganhe um novo mandato. Nada é mais arriscado.
Suponhamos que a Polícia Federal consiga descobrir o financiador. E mais. Que seja alguém muito próximo de Lula ou até mesmo que o dinheiro seja da própria campanha do presidente.
O petista, então, terá derrotado Alckmin à custa de um estelionato eleitoral. Subtrai-se a verdade da população em busca de mais quatro anos no Palácio do Planalto.
Não seria exagero tachar um novo mandato nessas circunstâncias de ilegítimo. Seria questionado na Justiça. Lula perderia o mandato? Aí é outra história.
O melhor caminho seria identificar desde já quem forniu os bolsos dos "aloprados". A democracia e a população agradeceriam. Bem, se é que a verdade surgirá um dia.




Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 10h56
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CLÓVIS ROSSI

Folha de São Paulo

As "organizadas"

SÃO PAULO - A eleição deste ano tomou o jeito do futebol brasileiro: em campo, apenas as torcidas organizadas, com toda a violência, truculência e selvageria características. Uma delas chegou a tentar interferir no resultado, extracampo, ao comprar não o juiz, como acontece no futebol de verdade, mas um dossiê.
Com isso, e sempre na toada do futebol, há o risco de o resultado do campeonato ir para o "tapetão" se se descobrir que o dinheiro para o dossiê saiu dos cofres do "clube", não da "organizada" do PT.
O outro lado responde com um campanha na internet lançando boatos exatamente sobre a origem do dinheiro.
Ainda como está acontecendo no futebol, foge dos estádios a grande massa de torcedores, que nada tem a ver com a fúria das "organizadas".
Desde que meu pai me levou para votar com ele, faz uns 50 anos, jamais vi uma eleição tão descolorida, silenciosa, sem graça.
Talvez porque a diferença está apenas na cor das camisas. As regras do jogo, o formato do campo, a bola e até as táticas são muito, demasiadamente, parecidas. Tanto que a Fifa moderna desse peculiar esporte (o chamado mercado) não está nem um pouco preocupada com o resultado.
Sabe, perfeitamente, que as regras não escritas do mundo contemporâneo impedem que países periféricos tenham margem para grandes inovações táticas ou estratégicas, a menos que haja algum candidato disposto a superar a "irrelevância da política", para usar expressão do sociólogo Francisco de Oliveira. Não há.
Que a campanha só mobilize as "organizadas" é triste, mas tolerável. O problema será se o vencedor resolver também governar com os termocéfalos, os seus próprios e os emprestados.
Nessa hipótese, um país que já é atrasado e incivilizado caminhará para a "iraquezação".


crossi@uol.com.br



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 10h55
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O ex-governador do Rio de Janeiro e o estadista Leonel de Moura Brizola, hoje seu partido (PDT) nada tem de trabalhista, apenas bando de abutres atrás da herança ética do saudoso lider.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 23h35
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PDT: gabirus corroem legado de Brizola

Said Barbosa Dib *

Congresso em Foco

Leonel de Moura Brizola, o homem da resistência heróica à ditadura, o nacionalista incorrigível que sempre acusou as perdas externas e o caráter dependente da economia brasileira, o apaixonado pela educação integral como único caminho para o progresso do povo, deve estar muito triste lá no céu. As lideranças que vêm se destacando nacionalmente no PDT são, hoje, políticos originários não da própria legenda, mas oportunistas que desembarcaram no partido, distanciados das bases estaduais, sem compromissos com a história do trabalhismo e pouco preocupados com a moralidade que sempre permeou a atuação do partido.

A começar pelo candidato à Presidência da República, o insosso Cristovam Buarque, fã de carteirinha do globalizado Pedro Wall Street Malan, o homem da estabilização com recessão econômica, do superávit fiscal suicida, da política econômica absurda de submissão ao capital financeiro transnacional e coisas do gênero. Cristovam Buarque que, caricatural e desrespeitosamente, tentou pegar carona na luta histórica de Brizola pela educação integral, mas que, pelo que não fez pela educação, como governador do DF e ministro de Lula, acabou atolado no seu mísero 1% de votos.

O outro grande traíra do brizolismo também não é originário do partido. Veio, como não poderia deixar de ser, das hordas do PSDB, portanto, um tucanóide enrustido infiltrado no PDT: o enxacoco Jefferson Peres, o homem que se considera, em termos morais, o "grilo falante" do Congresso, mas que não passa de um dissimulado, um tartufo, que se diz preocupado com a corrupção e incompetência petistas no atacado, mas que sempre se manteve inexplicavelmente omisso com relação à verdadeira razzia perpetrada por FHC no varejo, com as privatizações financiadas pelo BNDES.

Mas, o mais grave vem do Maranhão. Um caso não apenas de traição aos princípios trabalhistas, mas de pura e escancarada corrupção. Candidato a governador pela coligação Frente de Libertação do Maranhão, o ex-prefeito Jackson Lago (PDT) tenta ampliar, para todo o estado, o esquema de corrupção que há vinte anos assola São Luís.  Isso porque, depois de três gestões na Prefeitura de São Luís, não é de hoje que encontra dificuldades para dizer como e onde gasta o dinheiro público. Pelo menos é isso o que mostra um documento do Tribunal de Contas do Maranhão, há muito publicado pela revista IstoÉ (16.08.2002). Trata-se de um relatório sobre as análises das contas municipais durante o ano 2000. O documento, com 40 páginas, aponta falcatruas milionárias, como dispensas ilegais de concorrências públicas e o uso de notas fiscais frias para justificar despesas também milionárias.

Por tudo isso, o grande Leonel Brizola deve estar se revirando no túmulo. Como dizem os gaúchos, deve estar "mais constrangido que padre em puteiro" e "sofrendo mais que joelho de freira na Semana Santa". Isso porque, como se vê, depois de dois anos de sua morte, o seu maior legado, o Partido Democrático Trabalhista Brasileiro (PDT), embora tenha conseguido passar pela cláusula de barreira com 5,2% dos votos e eleito 24 deputados federais em 13 estados e um governador, vem sendo liderado por pessoas muito pouco comprometidas com a herança política e moral deixada por ele. As ratazanas e gabirus infiltrados no partido não estão dando tréguas. Se a direção nacional do partido não ouvir as suas bases e não tomar providências enérgicas, o partido estará eticamente morto muito em breve, o que seria muito mau para o Brasil verdadeiramente desenvolvido e justo que Brizola sempre sonhou.

* Said Barbosa Dib é historiador e analista político em Brasília


Nota da redação - Aberto como é à expressão das mais diferentes visões políticas, este site não se furtou a publicar o artigo de Said Barbosa Dib. Mas as acusações feitas no texto pelo autor nos levaram a procurar a direção nacional do PDT para oferecer igual espaço, caso tenham interesse em debater as questões levantadas. A oferta continua de pé.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 23h27
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Hoje sem dúvida dia bem especial, até mesmo para as crianças que não tem motivo ou condição financeira para comemorar, façamos boas reflexões para saber qual o melhor candidato com proposta para área de educação.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 10h55
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   Uma crise lava a outra

dora.kramer@grupoestado.com.br/ Estado de São Paulo 

Pesquisas não dizem tudo - como demonstram sempre as alegadas surpresas produzidas pelas urnas a cada nova eleição -, mas, desde que não se faça delas um Oráculo de Delfos, ajudam a compreender os acontecimentos enquanto ocorrem, antes da produção dos resultados finais.

Os números do Datafolha registrando dianteira de 11 pontos porcentuais nas intenções de voto do presidente Luiz Inácio da Silva em relação a Geraldo Alckmin não são inteiramente discrepantes dos apurados pelo rastreamento interno do PSDB sobre o humor do eleitorado, que também indicam favoritismo, embora menor, de 5 pontos.

As consultas contrariam expectativas de largada vigorosa do tucano no segundo turno, mostram que o susto com o desempenho combativo de Alckmin no debate da TV Bandeirantes mais paralisou que motivou o eleitorado, mas consolidam um fenômeno que já explicara o favoritismo de Lula no primeiro turno, a despeito de o governo e o PT terem sido postos no banco dos réus do tribunal da moral e dos bons costumes desde o caso Waldomiro Diniz, em fevereiro de 2004.

No Brasil, escândalo tem prazo de validade e fácil digestão.

Ocorre agora com o caso do dossiê, minguando envolto em sombras e confusão, sendo absorvido a despeito da falta de uma solução completa. Do jeito que está, com os acusados trocando de lugar com os acusadores, virou uma obra aberta a respeito da qual cada um escreve o epílogo que bem lhe aprouver.

A maior evidência da facilidade do País em digerir malfeitorias distantes está na eleição da maior parte dos mensaleiros e da punição a um bom número de sanguessugas. Diferença entre eles? As datas em que suas peripécias vieram a público. Os do escândalo mais longínquo foram beneficiados em detrimento dos protagonistas do episódio mais recente.

Numa lógica ética invertida, uma crise lava a outra, enquanto a mão suja de um contamina a do outro, mesmo quando esse outro é adversário. Se ele está do lado oposto, se não é o alvo da acusação ou mesmo da acusação formalizada na Justiça, pouco importa, acaba sofrendo os efeitos do dogma da igualdade absoluta entre os seres humanos quando se trata de entes cuja profissão é a política.

Depois que o PT assumiu o poder, aderindo e aprofundando práticas antes por ele condenadas, consolidou no imaginário popular a idéia de que realmente não há mais o 'outro', só existe um lado, o do mal, sem nuances, nulo de diferenciação. De tudo se faz tábula rasa quando o assunto é política.

Segunda-feira, dia seguinte ao debate, um motorista de táxi (sempre eles, 'populares' sempre ao alcance da mão) em São Paulo defendia vigorosamente a tese da igualdade entre os homens - na visão dele - de má vontade. Não era defensor do voto nulo nem eleitor de Lula.

Acabara de votar em José Serra, dizia-se arrependido, no dia 29 votará em Alckmin, mas 'sabendo' que 'são todos da mesma máfia'.

E por que não escolhera então o presidente Lula e os candidatos do PT?

'Porque tanto faz.'

'Então, tanto faz também que o senhor faça seu trabalho com honestidade, porque o passageiro está autorizado a considerá-lo um mafioso, pois existem máfias de taxistas em aeroportos, rodoviárias e outros pontos de reserva de mercado.'

'Aí não é justo.'

'Como não, o critério da generalização não é o mesmo? Ou os políticos não pertencem ao gênero humano, onde há os bons, os maus e os mais ou menos?'

'Pensando bem, acho que são uma raça à parte.'

Embora quase caricata, a história é real. Retrata o distanciamento entre a sociedade e a política, além de ser reveladora da renúncia dos cidadãos ao poder de discernir e a rendição à lassidão alienada de se deixar confundir.

Propriedade partidária

O PT acusa a aliança PSDB-PFL de pretender privatizar o Banco do Brasil e a Caixa Econômica. Não foi um nem foram dois, mas vários, os episódios que confirmam o uso partidário - privado, portanto - das duas instituições na quebra de sigilos bancários de correntistas para sustentar acusações contra adversários políticos.

O temor, no caso de vitória da oposição, não é de uma privatização, mas da perda de um instrumento de Estado a serviço do aparelho partidário e da possibilidade de uma auditoria para apurar exatamente o que se passou nas estatais em termos de serviços prestados ao poder.

Petrobrás

O presidente da Petrobrás, Sérgio Gabrielli, enviou a seguinte mensagem a propósito de nota publicada aqui no último domingo: 'A diretoria da Petrobrás desmente, enfaticamente, informação de que os funcionários estariam recebendo e-mails da direção da Companhia, orientando-os sobre como votar no segundo turno das eleições.

'A nota causou indignação à direção da Petrobrás, que repudia qualquer insinuação quanto a pressões políticas ou assédio moral junto à sua força de trabalho. Tal comportamento não condiz com o caráter e a lisura da atual diretoria.'



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 10h48
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   Parte da classe média volta a apoiar presidente

Para especialistas, vantagem mostra que Lula recupera apoio perdido por pouco tempo

Gabriel Manzano Filho / Estado de São Paulo

A retomada de vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva - dos quase 7 pontos, na votação do dia 1.º, para 11 ontem, nas intenções de voto do Datafolha - foi entendida, por alguns cientistas sociais, como uma simples volta ao cenário dominante da disputa. Para Marcus Figueiredo, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), 'foi a classe média que provocou o segundo turno - por causa da denúncia do dossiê Vedoin e por achar que Lula estava de salto alto. Essa turma sentiu-se atendida no debate e voltou a apoiá-lo.' Um universo de apoio que o tucano teve por um breve tempo, diz Figueiredo.

É parecido o raciocínio de Murilo Aragão, da ArkoAdvice. Ele entende que o presidente já tinha uma vantagem confortável e o debate, com o escândalo do dossiê, 'foi a única coisa ruim que lhe aconteceu na campanha, um episódio que ele não conseguiu explicar'. Mas a advertência já cumpriu seu papel: foi assimilada e a vantagem voltou a aparecer. 'Esperava-se, também, uma onda tucana, principalmente em São Paulo, Minas e Pernambuco, mas os aliados de Alckmin não conseguiram produzi-la', diz ele.

A analista Fátima Pacheco Jordão. da FPJ, lembra que cerca de 60% ou mais do eleitorado do presidente 'foi preservado', pois não viu o debate. A chance de mudança só foi posta para os 40% restantes, cuja maioria é do tucano e que o considerou melhor no confronto da TV. 'Assim, não se pode dizer que o debate atrapalhou o candidato do PSDB. Talvez tenha ajudado e impedido que a vantagem de Lula fosse maior no Datafolha de ontem', avisa Fátima. Ela adverte para duas situações. Primeiro, há um fator de identificação entre eleitor e candidato. Muitos eleitores acharam que no debate Alckmin estava mudado. 'É preciso tempo para assimilar e aprovar, ou não, essa mudança'. Segundo, o eleitor está momentaneamente sem a referência do horário eleitoral. E nesse vazio 'atuam os apoios do candidato próximos ao eleitor. Nesse item, Lula está mais bem servido e se beneficiou.'

Os três admitem, no entanto, que o quadro continua indefinido. Pelo Datafolha há 5% que não sabem, mais 4% de brancos e nulos. E dos que votam Lula, 8% admitem mudar de lado. Outros 10% de Alckmin dizem o mesmo. Forma-se um universo próximo dos 15 milhões de eleitores. 'Isso não quer dizer que vão mudar, nem que vão mudar para Alckmin. Apenas que temos um eleitor que é mais volátil, porque tem mais informação', diz Fátima.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 10h45
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   Mais uma razão para não votar em Lula

Gilberto de Mello Kujawski / Estado de São Paulo

Foram tantas as surpresas, tantos dados contraditórios, tantos resultados chocantes no primeiro turno destas eleições de 2006 que é preciso dar um tempo antes de começar a entender. A eleição de Paulo Maluf, Jader Barbalho e de alguns mensaleiros foi revoltante, assim como é incompreensível a não-eleição de Antônio Carlos Biscaia (PT-RJ), a liderança decisiva na condução da CPI dos Sanguessugas. Já a vitória de Ibsen Pinheiro (PMDB-RS) e de Alceni Guerra (PFL-PR) foi a reparação da injustiça clamorosa de que foram vítimas há tempos. Roberto Requião, governador do Paraná, despachado para o segundo turno, teve o castigo merecido por sua empáfia e arrogância. Yeda Crusius, que é paulista, a favorita no Rio Grande do Sul, brilhou no primeiro lugar, seguida pelo petista Olívio Dutra, dos hórridos bigodes. Denise Frossard, a prima-dona do PPS, deu um ensurdecedor dó de peito ao pregar voto nulo em Alckmin e César Maia, o Brucutu do PFL, provocou desconfianças ao correr tão açodado atrás de Clodovil. Pior do que ambos só o boquirrotismo irritante e irresponsável de Ciro Gomes.

Quanto à virada na eleição para presidente da República, só os institutos de pesquisa, sempre os últimos a saber, foram surpreendidos. Os institutos de pesquisa são conservadores, nunca inovam as expectativas, e o mais conservador é o Datafolha. O verdadeiro termômetro das pesquisas para presidente não são os números, são os nervos de Lula. Os índices sempre estão a seu favor, mas basta o petista entrar numa entrevista com a imprensa, ou num debate, para sua tensão subir incontrolavelmente. Por que será? Desde o início da campanha, para o observador independente, que não vai automaticamente atrás das pesquisas, ficou patente que Lula não estava com aquela bola toda.

Pois bem, em meio à barafunda do cenário eleitoral após o primeiro turno, destacam-se alguns fatos novos, totalmente inéditos, que se encadeiam numa linha de coerência que nem todos estão percebendo. Refiro-me ao fracasso dos 'dinossauros', os chefes das velhas oligarquias regionais que dominam os Estados da Federação desde tempos imemoriais. A falência mais escandalosa foi a de ACM na Bahia, dando chance à vitória no primeiro turno do petista Jaques Wagner, com aquele ar de barão de beira-rio. Mas ACM não está sozinho. Ney Suassuna, do PMDB, perdeu seu lugar de senador pela Paraíba. Severino Cavalcanti, Guinness das maiores trapalhadas, dono de considerável curral eleitoral em Pernambuco e ex-presidente da Câmara, ficou chupando o dedo na eleição para deputado. Mão Santa, do Piauí, ficou muito atrás do petista Wellington Dias. E - quem diria? - José Sarney, se não tomasse um suadouro e não comesse muita poeira nas estradas que não soube asfaltar, esteve a ponto de ser destronado no Amapá.

Sim, os velhos caciques estão perdendo poder e influência, com poucas exceções. Já não comandam com aquela segurança os ventos e as marés eleitorais. As novas gerações, entretidas horas por dia na internet, desligadas de partidos e ideologias, bastante descrentes em relação à política e aos políticos de molde tradicional, fogem ao controle das lideranças tradicionais. Aqui é que mora o segredo que os cientistas políticos ainda não perceberam. A internet, manejada pela jovem geração, transformou-se numa ferramenta política mais eficaz que a propaganda dos candidatos, o horário eleitoral ou o prestígio dos coronéis. Nivela classes e regiões. Trata-se de mudança geracional. Para quem não sabe, a luta entre as gerações é mais importante e decisiva que a luta de classes, e se declara, inclusive, no seio das próprias classes, dividindo-as. Ainda é cedo para concluir, mas o que se esboça entre as novas gerações é a mudança qualitativa do voto no País. O voto induzido por partidos e ideologias, ou imposto pelos caciques, cede lugar ao voto de opinião, o voto de convicção pessoal, desligado dos currais eleitorais e também de partidos e ideologias. A nova geração não é cética, nem cínica, nem indiferente, apenas está à procura de um instrumento de pesquisa e expressão política adequado aos seus padrões de maior autonomia intelectual e social. Ainda recentemente a televisão exibiu um grupo de rapazes e moças do Nordeste protestando com veemência contra a venda de votos, tão difundida naquela região entre seus pais e avós.

Partindo desta premissa - a tendência ao voto de livre convicção, desvinculado de partidos, ideologias, caciques -, torna-se frívolo especular se Lula não ganhou no primeiro turno em razão dos escândalos ou da ausência do debate da Globo. Lula se enfraqueceu junto às novas gerações porque Lula é uma fraude. Ora posa de energúmeno enfurecido (como no primeiro turno), ora de 'Lulinha paz e amor' (como agora), não fala coisa com coisa, censura Collor, elogia Collor, tem ímpetos de fechar o Congresso (em conversa com Eugênio Staub), depois louva o Congresso, desanca a imprensa, bajula a imprensa. Além de corromper o português (às vezes, deliberadamente), Lula corrompe a palavra, que em sua boca é sempre dúplice. Pelo menos desta corrupção, do português e da palavra, ele não escapa.

A força de Geraldo Alckmin está em se apresentar como ele é. Sem demagogia, sem teatro, sem aquela cansativa comédia do 'carisma' lulista. O 'chuchu' já fez Lula engasgar no primeiro turno. É um político de cara limpa, olhos nos olhos, palavra direta, sem circunlóquios nem delírios.

Lula, ao contrário, sempre ambíguo, quer passar pelo que não é. 'Paz e amor'? Sua natureza é o oposto. Explosivo, autoritário, fértil em palavrões. Palavrão tem hora. Seu abuso denota impotência.

Eis aí mais uma razão para não votar em Lula, um hábil e perigoso comediante, 'pai dos pobres e mãe dos ricos'.

P. S. - Resultado do primeiro debate: Alckmin debateu, Lula se debateu. Dez a zero para Alckmin.

Gilberto de Mello Kujawski, jornalista e escritor, é membro do Instituto Brasileiro de Filosofia
E-mail: gmkuj@terra.com.br



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 10h38
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Debate liga Lula a corrupção e Alckmin a autoritarismo

Folha de São Paulo

Audiência do confronto tem percepção maior de defeitos dos candidatos, diz Datafolha

Petista é o candidato mais simpático para fatia maior de eleitores; tucano aparece na pesquisa como o mais inteligente e "moderno"


RAFAEL CARIELLO
DA REPORTAGEM LOCAL

O debate entre os candidatos à Presidência da República realizado no último domingo na TV Bandeirantes aguçou a percepção de defeitos, entre os que assistiram ao programa, que o eleitorado em geral vê em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Geraldo Alckmin (PSDB).
Segundo a pesquisa Datafolha realizada na terça-feira, uma fatia maior de eleitores considera Alckmin o candidato "mais autoritário" (44%, contra 36% para Lula) e "que mais defenderá os ricos, se eleito" (59%, contra 17% de Lula).
Quando considerados apenas os que assistiram ao debate, no entanto, aumenta a proporção dos que consideram o tucano o mais autoritário (50%, contra os mesmos 36% de Lula). Ainda neste grupo, também aumenta a fatia dos que consideram o candidato do PSDB "o que mais defenderá os ricos" (62%, contra 16% para Lula).
Um efeito semelhante ocorre com Lula na percepção de corrupção. No total de entrevistados, 35% consideram o petista "o mais corrupto", contra 20% que consideram Alckmin como tal. Entre os que viram o debate, 40% acham Lula "o mais corrupto", e 22%, Alckmin.
Qualidades relacionadas aos dois candidatos também saem reforçadas. Lula, por exemplo, é visto como "o mais simpático", no total dos entrevistados, por 47% dos eleitores -contra 40% que atribuem essa qualidade a Alckmin.
Entre aqueles que assistiram ao debate na TV, 50% consideram Lula o mais simpático, enquanto Alckmin permanece com os mesmos 40%.
No geral, o tucano consegue uma fatia maior de eleitores que o vê como "o mais inteligente" -51%, contra 34% que atribuem essa característica a Lula- e "o mais moderno e inovador" -45%, contra 39% para Lula. Já entre os que assistiram ao debate, aumenta a proporção dos que consideram Alckmin o mais inteligente -chegando a 54%, enquanto Lula oscila um ponto, para 35%.
O mesmo acontece com a percepção sobre o tucano ser "o mais moderno e inovador", em que ele ganha três pontos em relação aos entrevistados em geral, e chega a uma fatia de 48% do eleitorado que assistiu ao debate -Lula é visto assim por 39% dos que acompanharam o programa de domingo.
Lula lidera na categoria candidato "que faz mais promessas que não pode cumprir", entre os entrevistados em geral, com 37% -contra 32% que dão a Alckmin o título. Para os que viram os dois debatendo, há um empate técnico na capacidade de fazer promessas e não cumpri-las. O petista vence para 38%, e o tucano para 36%.
Segundo Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha, todos esses aspectos "foram abordados no decorrer do programa" e fixam, para os que o assistiram, uma imagem dos candidatos. Ele ressalva, no entanto, que isso não significa necessariamente um fator de mudança de voto. "Os eleitores podem ter essa percepção e nem por isso mudarem o seu voto."




Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 10h25
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CARLOS HEITOR CONY

Folha de São Paulo

Razão & emoção

RIO DE JANEIRO - Foi generalizada a impressão de que Alckmin se saiu melhor no primeiro debate com Lula, na Bandeirantes. Nem por isso aumentou sua aceitação no eleitorado, pelo contrário, perdeu três pontos, com Lula abrindo uma diferença de 11 pontos.
Duas considerações sobre esse fato. Primeira: num debate, o que vale não é o apelo à razão, mas o tom de indignação com que se ataca ou se defende. Alckmin mostrou-se indignado, acuando Lula diversas vezes. E isso contou pontos para a sua performance no debate.
Segunda: por maior que seja a audiência dos debates na TV, o grosso do eleitorado não toma conhecimento deles. Mais da metade da população não lê jornais e revistas, votando por empatia pessoal com os candidatos. Isso explica desde o meio milhão de votos que o estilista Clodovil conquistou em São Paulo até a liderança de Lula nas pesquisas, sempre em primeiro lugar, apesar de todos os escândalos que marcaram os últimos meses de seu governo. O eleitor médio vota em Lula porque ele é pobre, faz o gênero gente como a gente. Depois de anos em que os dirigentes do país foram da classe rica e instruída, a opção preferencial é por um pobre que se orgulha de ter a mãe analfabeta.
A menos que ocorra um fato realmente novo, apesar dos debates que ainda virão, o eleitorado poderá mudar de opinião sobre Lula, mas não de dar seu voto àquele que o representa política e socialmente.
Fernando Gasparian foi uma das principais referências culturais do Brasil contemporâneo. Comovente a sua luta contra o regime militar. Tenho orgulho de ter sido um de seus admiradores incondicionais. A última vez que o vi, era o mesmo Gasparian dos tempos de luta por um Brasil mais justo e civilizado.




Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 10h23
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ELIANE CANTANHÊDE

Folha de São Paulo

Acertos de um, erros de outro

BRASÍLIA - O Datafolha de ontem desmonta a versão (ou torcida) tucana de que bastaria Alckmin ir para o segundo turno, ser o "grande fato novo" e virar "uma onda". Pronto. Fácil. Tudo resolvido.
Como nem a vida nem as eleições são tão simples assim, o que se vê é que Lula levou um susto e saiu da arrogância para o ringue, enquanto Alckmin inebriou-se cedo demais.
Um tirou o salto alto, o outro calçou-o -e muito antes da hora. A pesquisa, que aumenta o favoritismo de Lula de 8 para 12 pontos nos votos válidos, aparentemente reflete muito mais a largada política do segundo turno do que o próprio debate na TV Bandeirantes. Até porque, apesar de Lula ter 51%, deu empate na avaliação do confronto, aliás com dois pontos a mais para Alckmin: 43% a 41%.
Na primeira semana depois de confirmado o segundo turno nas urnas, Lula criou uma agenda positiva, e Alckmin, uma negativa. Lula reuniu governadores, ministros, acirrou os ânimos e adotou o discurso do medo. Alckmin patinou com o apoio dos Garotinho à revelia dos aliados originais no Rio e com a conseqüente enxurrada de críticas que ocuparam todo o noticiário de sua campanha.
Denise Frossard, que rompeu com Alckmin e depois recuou, não estava de todo errada: o abraço com os Garotinho pode ter arranhado o discurso (ou a pretendida aura) da ética. Tanto que o maior baque nos índices do tucano foi no Sul, nos eleitores de Heloísa Helena e nas faixas de maior escolaridade e de renda -ou seja, justamente onde tinha começado a virar "onda".
Lula entrou mais forte na eleição, chegou na dianteira ao segundo turno e neutralizou o impacto de não ter vencido já em primeiro de outubro. Enfim, tem efetivamente mais chances de vencer. Especialmente se Alckmin, os tucanos e os pefelistas errarem. E, sempre que se precipitam, a possibilidade de erro fica bem maior.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 10h22
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Exposição total

Folha de São Paulo

Disputa presidencial passa a dominar de modo ostensivo a mídia; é hora de os candidatos esclarecerem programas

COMEÇA HOJE o período mais intensivo de exposição na mídia das candidaturas de Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin à Presidência. Com a estréia do horário de propaganda obrigatória no rádio e na TV e a realização, concomitante, de uma série até aqui inaudita de debates e entrevistas com os dois postulantes, os quase 126 milhões de eleitores brasileiros serão ostensivamente convidados a refletir sobre seu voto decisivo.
Se o debate de domingo passado na TV Bandeirantes servir como prévia da estratégia de campanha, a agressividade -os ataques cerrados tendo como mote os desmandos éticos da administração petista- deve dominar as intervenções de Alckmin. Comparações com a era FHC, exaltações da política social e a difusão do temor de que o PSDB no governo venha a cortar o Bolsa Família e a retomar as privatizações devem ser linhas freqüentes na campanha de Lula.
A dúvida é saber se essas linhas de atuação serão suficientes para o objetivo que cada uma das candidaturas traçou.
O risco, no caso de Alckmin, é que, a manter-se na toada inaugurada no debate, sua mensagem venha a soar muito convincente para um público que já votou no tucano no primeiro turno -e que aderiria à sua chapa naturalmente nesta segunda etapa-, mas pouco efetiva para amealhar eleitores do seu adversário. Vale lembrar que a pesquisa do Instituto Datafolha de ontem, com campo feito dois dias após o debate, apontou queda nas intenções de voto do tucano.
No caso da estratégia de Lula -estratégia conservadora, pois, a julgar pelo resultado do primeiro turno e pelas primeiras pesquisas desta fase final, ele está mais próximo da vitória em 29 de outubro-, o risco é a insuficiência de respostas aos incisivos questionamentos éticos do adversário. Se a grande adesão à reeleição de Lula da faixa de eleitores com renda familiar mensal até R$ 700 foi pouco abalada até aqui, nada garante que, na dinâmica mais agressiva do segundo turno, um desgaste maior do petista não venha a ocorrer.
É preciso louvar, enfim, a oportunidade de assistir aos dois candidatos ao posto político mais cobiçado do Brasil numa seqüência de entrevistas e debates como a que se prenuncia. A nota decepcionante fica por conta das barreiras, interpostas pelas assessorias dos presidenciáveis, a uma inquirição franca e madura nos debates televisivos. O modelo, calcado na regra "candidato pergunta para candidato", inibe interpelações feitas por terceiros -jornalistas, por exemplo- que não se vinculam à lógica das campanhas.
O que se espera das duas candidaturas, de resto, é que levem mais a sério, nesta etapa decisiva, seu dever de explicitar suas diretrizes de governo para o quadriênio 2007-2010. Nem o compromisso com a ética no poder -que deve ser, ademais, atributo básico de qualquer governante- nem a louvação do passado administrativo satisfazem o desejo fundamental do eleitor que é o de saber qual das duas chapas lhe trará um futuro melhor.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 10h19
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1.O PT dos Trabalhadores está usar estratégia eleitoral simples mais eficiente, Geraldo Alckmin e o candidato do FHC (privatizações do Setor Público), o candidato do PSDB para presidente não tem marca política ou carisma popular junto ás populações mais pobres da sociedade civil.
2. Quando o espectro de FHC e notado pelo eleitor mediano, vem toda rejeição no subconsciente contra o ex-presidente, suas políticas antipopular e elitista numa visão político social-elitismo do tucanato paulista, esse bairrismo do ex-governador, sempre colocar o estado de São Paulo no centro das decisões políticas, faz que o eleitor do Sul e do Norte-Nordeste tenha sentimento regionalista bem forte, rejeição do projeto político – econômico que coloque os paulistas de novo no centro do poder.
3.E notório que grande parte do eleitorado está escolhe seu candidato por rejeição determinada candidatura, voto pelo não, isso transforma esse pleito eleitoral num grande show do estilo global do BBB, menos rejeitado e que ganhar.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 11h19
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Ao nível de equilíbrio do bem e do mal

Valor Econômico

Rosângela Bittar
11/10/2006

O presidente Lula, candidato várias vezes na vida, foi assíduo freqüentador de debates. O ex-presidente Fernando Collor humilhou-o diante de milhões de eleitores na campanha de 1989. O falecido governador Leonel Brizola ridicularizou-o, dando-lhe apelidos jocosos. O ex-presidente Fernando Henrique preferiu a condescendência e dispensou com ele a discussão, alegando ser desnecessário por se tratar de um mito. O PT se submete, os ministros não o enfrentam. Lula esteve sempre acima do bem e do mal.

Luiz Inácio Lula da Silva, na reflexão que se pretende aqui fazer, nunca teria sido tão respeitado como o foi no domingo por seu adversário na disputa da Presidência da República, Geraldo Alckmin, durante debate da TV Bandeirantes. Uma constatação que contraria tudo o que têm dito Lula, o PT e os que agora firmaram a estratégia de vitimizá-lo para sensibilizar o eleitor indeciso.

Há, porém, um petista, o deputado mineiro Paulo Delgado, que sempre foi independente e crítico e talvez por isso mesmo não tenha conseguido a reeleição para a Câmara, que tem uma visão diferente: "Nem Lula foi agredido, nem o debate só tratou de 'baixarias'. Foi o melhor debate da história da política brasileira. O nível foi alto, o Lula foi respeitado e também respeitou, houve um embate político duro entre dois homens adultos". Se os petistas insistirem em ver o debate como hostil, diz Delgado, "é sinal de que querem ganhar a disputa sem resolver os problemas. O PT não pode querer ganhar sem debater essas questões, essa é a agenda, nós temos que explicar os problemas".

Em sua opinião, a exigência da sociedade brasileira é o esclarecimento da agenda negativa da política. O segundo turno teria a função de decantar o principal da agenda que, segundo o deputado, tem hoje dois temas principais, e ele começa pelo segundo para destacar a importância do primeiro. "O segundo grande tema da sociedade brasileira é o progresso industrial e vigor tecnológico. Isto inclui gerar emprego, aumentar o PIB, criar um país com crescimento econômico que possa prescindir de políticas sociais emergenciais".

O primeiro grande tema, porém, "é a moral e os bons costumes da vida pública". Para Delgado, seria inédito no mundo uma sociedade em que existe "desonra na política" com um PIB de primeiro mundo.

"O primeiro debate do segundo turno foi o melhor debate desde a abertura. Os dois candidatos foram tratados como adultos e isso permitiu que a vaidade, as idiossincrasias de cada um, não se tornassem o elemento central". A síntese humorada de Paulo Delgado é: "Foi um debate americano com temas paraguaios".

O Brasil, a seu ver, ainda não se elevou, não tem a dureza que europeus e americanos têm quando se trata do confronto com a moral pública. "A idéia de que a agenda da honestidade é 'baixaria', e que a indignação é irritação, é de um país que não está acostumado a ver essa questão tratada com objetividade e de maneira adulta e respeitosa, como foi".

Paulo Delgado discorda também dos que não perceberam no debate a exposição de programas de governo. São três as funções do debate, diz. A primeira, é ver a integridade do homem público diante do seu contendor. A segunda, principalmente no caso do presidente de um país, é ver como ele reage em situações de risco, a capacidade que tem de absorver críticas sem considerá-las pessoais. E a terceira é colocar na mesa, para discussão, o que está nas fábricas, nas empresas, nas universidades, os assuntos que estão nas instituições e nas ruas.

Há 10 anos, lembra, já coube em debate uma pergunta sobre Aids, e hoje a questão não está mais na rua; como já esteve na agenda a questão do aborto, da fé - este debate derrotou Fernando Henrique Cardoso há 15 anos, porque era da agenda brasileira. "Hoje, perguntar a Lula se ele é católico ou evangélico não seria uma agressão, da mesma maneira que não seria agressão pergunta a Alckmin qual a verdadeira vinculação dele com a Opus Dei".

"Um debate americano com temas paraguaios"

Lula e o PT reclamam que não houve discussão sobre programa de governo, mas houve, sim. Todas as perguntas, respostas, réplicas e tréplicas sempre incluíram críticas a opções feitas pelos partidos em disputa e embutiram também projetos para o futuro. O que não houve foi a substituição total da agenda da honestidade.

Paulo Delgado define: "Não houve debate acadêmico sobre programa de governo, nem ali era o lugar; houve debate político sobre programa de governo". O encontro, diz, elevou o nível da política: "Quem está querendo baixar o nível é o PT. O PT não aguenta esse tipo de debate"

Fenômeno discreto

Da infinidade de informações que brotaram do resultado eleitoral, uma chama particularmente a atenção: o desempenho de Gleisi, candidata do PT ao Senado pelo Paraná. Sem nunca ter disputado um cargo público, ela perdeu a eleição para o veterano Álvaro Dias por uma diferença de apenas 273.393 votos, mas teve mais eleitores - 2.299.088 - que o presidente Lula -2.111.589.

Contra Lula, pesou a crise do setor agrícola. A favor da noviça Gleisi, o apoio do marido, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, que poderia ser candidato a qualquer coisa no Paraná, de deputado federal a governador. Permaneceu no cargo a pedido do presidente Lula, numa época em que contava com um aliado de peso no governo, o ex-ministro Antonio Palocci.

Se tivesse disputado o governo do Estado, Gleisi poderia estar no segundo turno com Roberto Requião - Osmar Dias (PDT), que disputará com o governador no dia 29, teve menos votos que ela: 2.093.161.

Gleisi se posicionou como uma opção do PT no Paraná. Mas setores do partido, interessados em "despaulistizar" o PT, lamentam que o nome de Paulo Bernardo nem sequer tenha entrado na lista das cogitações para a presidência do PT, cuja eleição deve ser antecipada de outubro para março de 2007.

Risco Alckmin

Mais uma declaração do Yoshiaki Nakano e o candidato Geraldo Alckmin vai ter que escrever uma carta ao povo brasileiro.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 10h12
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A versão petista do terrorismo eleitoral

Valor Econômico

Cristiano Romero
11/10/2006

Vítima de terrorismo eleitoral nas eleições de 1989 e 2002, o PT, agora no poder, lança mão das mesmas armas para atingir seu oponente na disputa presidencial. Em 1989, Fernando Collor de Mello disse que Lula confiscaria a poupança, medida que ele, Collor, colocou em prática no primeiro dia de mandato. Em 2002, o candidato do PT foi novamente coagido pela tática do medo. Nem a Carta aos Brasileiros, lançada a algumas semanas da eleição, impediu que a especulação corresse solta nos mercados.

Instalado na presidência, Lula desmentiu os terroristas eleitorais, fazendo uma gestão econômica mais conservadora que a de seu antecessor. Agora, ameaçado por um segundo turno com o qual não contava, o presidente-candidato e seus seguidores "acusam" Geraldo Alckmin de querer privatizar o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e a Petrobras, de ameaçar o existência do Bolsa Família e de demitir funcionários públicos, além de cortar seus salários. Ontem, em entrevista à rádio Bandeirantes e à BandNews, Lula chegou a dizer que a única coisa que seu adversário sabe fazer é "vender coisas". No fim da tarde, acusou Alckmin de ser "um cidadão especializado em destruir o que a gente fez". Citou a Petrobras como exemplo de algo que pode ser destruído.

O candidato tucano não defende, em seu programa, a realização de novas privatizações. Nos bastidores de sua campanha, também não há ninguém argumentando em defesa de uma nova rodada de desestatização, embora esse não seja um tema proibido entre seus apoiadores. No programa do PT, não se fala do assunto. Esse é um dos aspectos condenáveis da campanha presidencial em curso: a miserabilidade do debate. Todos os governos civis, desde a redemocratização, há 20 anos, deram contribuições para a modernização do país. Um capítulo importante desse processo foram justamente as privatizações, o início da transição de uma economia autárquica para uma economia de mercado. Em 11 anos - de 1991, quando foi vendida a Usiminas, a 2002, último ano da gestão FHC - o governo, por meio de três presidentes, privatizou os setores petroquímico, siderúrgico, de telecomunicação e distribuição de energia, além de empresas importantes, como a Embraer e a Vale do Rio Doce, e de inúmeros bancos estaduais.

Embora tenham iniciado de fato no governo Collor, as privatizações começaram a ser planejadas no governo Sarney. Mesmo Itamar Franco, um nacionalista com pendor estatizante, não interrompeu a desestatização iniciada por seu antecessor - a CSN foi vendida em seu mandato. Fernando Henrique Cardoso quebrou monopólios estatais e deu grande impulso ao processo, que só não continuou na gestão Lula porque faltou tempo ao então ministro Antonio Palocci para desregulamentar o setor de resseguros e privatizar o IRB, mas o plano era exatamente esse. Lula, aliás, não pode dizer que não privatizou - o Banco do Estado do Ceará (BEC) foi comprado pelo Bradesco em sua gestão.

A esta altura do estágio de desenvolvimento da economia brasileira, é um contra-senso que o tema desestatização esteja interditado pela disputa política. Nesse aspecto, o terrorismo eleitoral propagado pelo PT é danoso. Fala-se das privatizações como se elas tivessem feito um grande mal ao país, o que não é verdade.

São inúmeros os exemplos de empresas que, privatizadas, cresceram de forma acelerada, gerando mais empregos, lucros e retorno para o Estado (em impostos) e para a economia em geral (em eficiência). Faça-se menção a dois casos, freqüentemente citados por petistas e por boa parte da esquerda brasileira como deletérios: o da Vale do Rio Doce e o da telefonia.

A Vale foi privatizada em 1997. Naquele ano, seu lucro líquido, quase 50% superior ao do ano anterior, foi de R$ 756 milhões. No ano passado, a empresa, uma multinacional com presença em 17 países, lucrou R$ 10,4 bilhões. Em 2004, suas vendas ao exterior atingiram US$ 5,5 bilhões, quase 5% do total das exportações brasileiras. No ano passado, foi a primeira empresa a receber, das agências de classificação de risco, o grau de investimento, superior ao do país onde está instalada.

Privatização é banida do debate político

Em 1997, um ano antes da privatização do Sistema Telebrás, havia no Brasil 18,8 milhões de telefones fixos instalados. Em 2005, esse número já estava em 50,3 milhões. Já o número de terminais celulares pulou de 4,5 milhões para 94,9 milhões em agosto passado. Essa expansão não aconteceu no vazio. Trouxe fabricantes de celulares para o país, gerou empregos, lucros e renda.

Antiamericanismo para inglês ver

Atitudes antiamericanas sempre animaram platéias à esquerda no espectro político que apóia o governo Lula. Pragmático, o presidente cultivou relações pessoais com George W. Bush, mas deixou sua diplomacia ideológica dar caneladas nos americanos por debaixo da mesa. Pior para o Brasil porque, para dois países se aproximarem, não basta que seus líderes assim o desejem. É preciso que as diplomacias se engajem num esforço de aproximação.

Lula, agora, meteu Bush na disputa eleitoral ao comparar Alckmin ao presidente americano. O jogo, embora ainda possa produzir algum estrago no relacionamento com o líder americano, é para a platéia. O PT, nas figuras de Lula e do ex-ministro José Dirceu, se dá muito bem com o Partido Republicano, de Bush.

Tradicionalmente, a esquerda brasileira sempre foi ligada ao Partido Democrata, que representa a esquerda liberal americana. A família Kennedy tinha relações, por exemplo, com Leonel Brizola. O PT quebrou essa tradição. Sua relação preferencial foi com os republicanos hiper-conservadores de Bush.

Toda vez que o Itamaraty aumentava um pouco o tom da toada antiamericana, Dirceu corria aos Estados Unidos para se avistar com Condoleezza Rice, a secretária de Estado, e desfazer "falsas impressões", afinal, "Lula não é Chávez". O fato é que a relação do ex-ministro com os republicanos é tão próxima que, quando ele deixou o poder, cassado, foi convidado a passar uma temporada na América do Norte, estudando inglês e visitando Estados governados por eles, os republicanos.

Cristiano Romero é repórter especial em Brasília e escreve às quartas-feiras



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 10h08
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"O PSDB só sabe vender estatais", diz Lula

Valor Econômico

Paulo de Tarso Lyra
11/10/2006

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem, durante encontro com representantes do PMDB de Minas Gerais no Palácio do Jaburu, sede da Vice-Presidência, que está em jogo não a disputa entre dois homens ou dois partidos, mas de dois projetos distintos de país. "Um projeto que em oito anos demoliu todo o setor público brasileiro, um projeto que sequer teve competência para dar reajuste para o servidor público, habituado a fazer a tal da estabilidade fiscal à custa do sacrifício do povo. Nós estamos provando o que é possível fazer às custas do crescimento e do controle da inflação", afirmou o presidente, equivocadamente. Na verdade, Lula quis dizer que seu governo manteve a estabilidade fiscal aliada ao crescimento e ao controle da inflação.

Sem deixar claro se era uma frase de duplo sentido ou apenas uma referência aos gritos estridentes de um pássaro que ecoavam no Jaburu no início de sua fala, Lula afirmou estar "competindo com um pavão que, por outras razões, grita de forma desesperada". O presidente prosseguiu atacando o PSDB como uma legenda que defende o projeto do desmanche. "É aquele projeto em que o cidadão é especializado em destruir em dois minutos aquilo que a gente construiu em dois séculos", afirmou.

O presidente voltou ao tema do debate da TV Bandeirantes na noite de domingo ao acusar a oposição de privatizar as empresas estatais. "Se desfizeram de estatais que levaram anos para ser construídas e que eram altamente necessárias ao desenvolvimento e segurança nacionais. O nosso projeto acredita que tem de ter empresas importantes sob controle público. É só ver o crescimento da Petrobras", apontou

Lula já havia abordado o tema mais cedo, em entrevista à Rádio Bandeirantes FM e BandNews. Ele classificou como "pequenez" o comportamento de Alckmin, que prometeu, se eleito, vender o avião presidencial, o "Aerolula". "Fico irritado pela pequenez. Acho que demonstra o despreparo e a falta de visão dele", afirmou. "A única coisa que ele sabe fazer é vender coisas. Essa é uma cultura do PSDB. O PSDB não devia ser candidato a nada, a não ser a uma empresa de vender empresas estatais", prosseguiu o presidente.

Lula recebeu ontem o apoio dos pemedebistas mineiros, em peso. A reunião contou com a presença do vice José Alencar, do ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, e das Comunicações, Hélio Costa. Acostumado a fazer metáforas futebolísticas, Lula ontem enveredou pelo terreno do jogo de cartas. Afirmou que, apesar de não ser mineiro, sabe jogar truco. E é como bom jogador que pretende vencer as eleições no segundo turno. "Todo bom jogador de truco sabe que não adianta blefar o jogo inteiro porque chega uma hora em que você toma um seis pelo meio da mesa e então joga as cartas fora. Um bom jogador de truco tem que ser cuidadoso, blefar o menos possível. Podem ficar certos que vamos trucar e vamos trucar muito forte nesta campanha", afirmou o presidente.

Ele convocou os mineiros a trabalhar mais, afirmando que, "se no primeiro turno trabalharam 10 horas, agora devem trabalhar 15. Se falaram cinco minutos, agora devem falar vinte minutos". O ministro das Comunicações, Hélio Costa, prometeu a Lula dobrar a votação do presidente no Estado no segundo turno. "O presidente Lula recebeu 1,1 milhão de votos no dia 1º. Agora, vai receber muito mais", garantiu Costa.

Lula aproveitou para citar uma conversa que teve com o ditador Muammar Kadafi, quando de sua visita à Líbia, em 2003. "Eu estava conversando com o presidente Kadafi sobre a política internacional e ele me falava determinadas coisas. Eu disse, presidente, isso não pode ser feito num mandato de quatro anos, demora 20, 30 anos". Segundo Lula, Kadafi indagou: "Escuta aqui presidente Lula, o senhor não pode continuar? Posso, mas no Brasil tem uma pequena diferença: a gente tem de consultar o povo e o povo pode votar ou não", respondeu o presidente brasileiro.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 10h05
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   A entropia nacional

Mario Cesar Flores / Estado de São Paulo

Eleição após eleição, a política no Brasil vem perdendo qualidade, ameaçando a virtude da democracia. Parte significativa de seus atores, em déficit na ética e na competência, se vale da vulnerabilidade popular à ilusão para fazer da política instrumento do usufruto do poder e meio de vida, em vez de missão cívica. Os sintomas dessa conjuntura, de cômicos a trágicos, impregnaram a campanha de 2006, marquetizada em baixo nível intelectual e ético, em geral sem compromisso com a realidade, a viabilidade e a verdade e tampouco com os já em si vagos programas partidários, à sombra da apatia do povo descrente de melhora, incapaz de discernir a respeito ou cooptado por promessas de benesses públicas.

À perda de qualidade da política se acrescente o precário quadro social, refletido, por exemplo, no subemprego e na informalidade, na compressão da classe média, nas agressões socioambientais e na favelização aviltante. Nas insuficiências do SUS, do INSS e da educação pública - a fundamental, necessária à produtividade da economia moderna e à inclusão política pautada pela consciência cívica. Na banalização do desrespeito à lei e na tolerância com o delito, do pequeno à corrupção e à criminalidade, com a diminuição da capacidade da autoridade, se não da vontade, debilitada pela perda de qualidade da política, de aplicar a lei. No consumismo de “necessidades desnecessárias”, razão de desvios comportamentais para satisfazê-las, do endividamento descontrolado ao delito.

Finalmente, há que se lhe associar, na economia, o desenvolvimento lento e a modesta participação na economia global, vexatórios no âmbito dos países emergentes, à vista do potencial do Brasil. A influência política negativa é sensível: na postergação das reformas úteis para estimular o investimento privado e restaurar a capacidade do Estado no que lhe é próprio. Na fragilidade da segurança jurídica necessária ao funcionamento da economia. No anacronismo das estroinices ideológicas ou interesseiras do nacional-desenvolvimentismo e seu capitalismo de Estado, que pode recrudescer, embora o modelo esteja exaurido. E na política econômica externa orientada mais pela ideologia do que pela racionalidade do mundo globalizado.

Pairando sobre a interação da perda de qualidade da política com a desordem social e a letargia econômica, e agravando seus males, o peso da cultura estatista, de Estado onipresente intrusivo, dia a dia mais dependente de tributação e/ou endividamento para sustentar nosso frágil equilíbrio fiscal, quase autófago nos gastos públicos e, apesar da carga tributária, incapaz de atender às demandas de sua alçada. Enfim: o peso da cultura de Estado atrasado política e institucionalmente, patrimonialista, clientelista e cartorial, aberto à corrupção e ao fascínio do emprego público, com suas vantagens exclusivas e greves que prejudicam o povo, sem risco para os servidores.

Resultado: o abalo da credibilidade das instituições democráticas, principalmente, embora não apenas, dos partidos e da representação congressual, interveniente nas correções, mas inapetente ou impotente para realizá-las. A evolução desse cenário é incerta e pode até caminhar, pelos meandros ambíguos da lei, para alguma versão de democracia exercida com nuanças nem sempre rigorosamente dentro dos parâmetros clássicos do Estado democrático de Direito. Em vez das reformas necessárias, nas circunstâncias brasileiras atuais há o risco de ocorrer a marcha à ré estatista, matizada por políticas intervencionistas, estatizantes e social-populistas, comumente inibidoras do desenvolvimento sadio.

Tudo legitimado na liturgia democrática pela apatia ou cooptação: da massa pobre, via anestesia assistencialista; do trabalho incluído, pela atenção a interesses corporativos; do peleguismo sindical, pela inserção patrimonialista no usufruto da máquina pública; e dos políticos e clientelas, pela distribuição de cargos, liberações eleitoreiras de recursos públicos e outros meios não virtuosos. E tudo apoiado por artifícios em tese democráticos, mas sujeitos à monitoração viciada, como são os plebiscitos, referendos e decisões participativas (por vezes adequadas em temas simples, para pouca gente), e pelas ações em desafio ao direito, de movimentos sociais, parapolíticos. Por tender a depreciar a mediação político-representativa, um esquema dessa espécie é ameaça à tranqüilidade social e institucional, ainda mais em país grande e heterogêneo como o Brasil, com interesses e visões até divergentes, não conciliados por partidos de visão nacional. O preocupante quadro de secessão político-social e regional, nitidamente evidenciado na eleição presidencial de 2006, prognostica essa possibilidade.

Não se trata de determinismo: a evolução para melhor é obviamente factível, mas à primeira vista o Brasil está mais para preocupação do que para euforia. Na Física, o conceito da entropia é associado ao estado em que se encontra um sistema; quando há degradação do seu potencial de energia, a exemplo da dissipação da energia térmica em temperaturas baixas, diz-se que sua entropia aumenta. Trazendo o conceito para o sistema político-econômico-social do Brasil, podemos dizer que, em razão da política medíocre, influente em tudo, da desordem social e da modorra econômica, a entropia nacional vem aumentando, com desperdício do potencial brasileiro. A continuar aumentando - progresso lento, condução insatisfatória do quadro social, pouca presença na ordem internacional, estatismo ao mesmo tempo exacerbado e falho em seu espaço precípuo -, o Brasil permanecerá emergente sem, de fato, emergir, indefinidamente o “país do futuro”, assim qualificado há 60 anos. Mais dia, menos dia, vai acabar correndo o risco inerente aos dissabores aventados acima.

Mario Cesar Flores é almirante-de-esquadra (reformado)



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 09h54
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ELEIÇÕES 2006 / DATAFOLHA

Folha de São Paulo

Segundo eleitores, debate na televisão terminou empatado

Para 43% dos que assistiram ao debate da TV Bandeirantes, no último domingo, Alckmin venceu; para 41%, Lula foi melhor

Tucano não se saiu tão bem entre os mais escolarizados e de maior renda em relação a suas intenções de voto nessas fatias do eleitorado


RAFAEL CARIELLO
DA REPORTAGEM LOCAL

Os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Geraldo Alckmin (PSDB) empataram na percepção dos eleitores quanto ao seu desempenho no debate de domingo na TV Bandeirantes, segundo o Datafolha.
No entanto, Alckmin não se saiu tão bem na percepção do debate entre os eleitores mais escolarizados e com maior renda quanto as intenções de voto que havia conquistado nessa faixa do eleitorado em pesquisas anteriores. O debate foi mais visto, proporcionalmente, entre os mais ricos e mais escolarizados, e foram dessas fatias do eleitorado que o tucano mais perdeu votos.
Do total de eleitores ouvidos pelo Datafolha ontem, 39% disseram ter assistido ao debate -inteiro ou em parte-, contra 61% que não o fizeram. Entre os que acompanharam os desempenhos do tucano e do petista, 43% disseram que Alckmin se saiu melhor, contra 41% que viram em Lula o vencedor do encontro. A diferença entre os dois está dentro da margem de erro, de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
O Datafolha também coletou a impressão dos que não viram o debate, questionando qual a opinião deles sobre o desempenho dos candidatos a partir do que sabiam ou ouviram dizer.
No total dos entrevistados, 30% disseram considerar que Alckmin havia se saído melhor no debate, contra 28% que tinham essa opinião para Lula.
Entre os eleitores que têm renda familiar mensal maior do que 10 salários mínimos, Alckmin foi considerado o vencedor do debate por 54% dos entrevistados, contra 23% para Lula. Nessa faixa de renda, o tucano tinha na pesquisa da última sexta-feira 69% das intenções de voto, caindo agora para 62%.
Entre os que ganham de cinco salários mínimos a dez salários mínimos, 37% consideraram que Alckmin se saiu melhor, e 31%, Lula. Na pesquisa da última sexta-feira, no entanto, o tucano tinha nessa faixa 51% das intenções de voto. Agora tem 48%.

Influência
Para Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha, "se o debate exerceu alguma influência foi entre os que têm renda e escolaridade mais altas". "O fato novo entre as duas pesquisas foi o debate, e foi nesses segmentos que Alckmin caiu mais", ele diz.
Entre os eleitores que têm nível superior de escolaridade, 45% disseram ter visto vitória de Alckmin, contra 25% que consideraram Lula o vencedor do debate. Nessa faixa do eleitorado, as intenções de voto de Alckmin caíram de 56% nos dias 5 e 6 para 53% ontem.
Quando considerados os que têm nível médio, 35% consideraram Alckmin o vencedor, contra 27% que viram em Lula o candidato que se saiu melhor no debate. Alckmin tinha no final da semana passada 48% das intenções de voto nessa faixa, e caiu para 43% agora.
O debate foi assistido por 61% dos eleitores com nível superior completo, por 43% dos que têm ensino médio e por 31% dos que concluíram apenas o curso fundamental. Entre os que ganham mais de 10 mínimos, 72% disseram ter acompanhado o debate. A fatia cai para 53% dos que têm renda entre 5 e 10 mínimos; 41% entre 2 e 5 mínimos; e 31% entre os que ganham até 2 mínimos.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 09h50
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CARLOS HEITOR CONY

Folha de São Paulo

O dossiê misterioso

RIO DE JANEIRO - Os jornais da cidade de São Tomé das Três Lagoas receberam denúncia, de pessoa que pediu para não ser identificada, de que o prefeito comprara um elefante por um milhão de reais e pretendia aumentar a renda do município com a exposição do elefante, uma vez que, num raio de 300 km, ninguém sabia como era ou podia ser um elefante.
A denúncia, embora anônima, tinha foros de verdade, pois havia muitos intermediários na compra do elefante. A câmara municipal abriu uma CPI para apurar a transação mais do que suspeita, pois o elefante seria a peça-chave da campanha eleitoral do prefeito para se reeleger no ano seguinte.
Assessores do prefeito foram intimados a depor, e um deles admitiu que alguns vereadores da oposição também haviam participado das comissões da compra do animal por preço tão elevado. Seria um dinheiro que daria para todos.
As discussões foram tremendas, os jornais diariamente apontavam novos intermediários e um jornalista investigativo descobriu, guardando segredo da fonte, que o elefante custaria muito mais do que o anunciado e que uma parte do pagamento seria feito em dólares de origem obscura, provavelmente de traficantes que operavam na região.
O prefeito negava tudo e prometia transparência em todos lances da compra do elefante, insistindo em garantir que um animal daquele abria nova era na cultura e no turismo da cidade. No calor das discussões, quando todos discutiam o preço e condições da compra do elefante, descobriu-se que não havia elefante nenhum a ser comprado.
Os dois únicos existentes nas regiões vizinhas pertenciam ao jardim zoológico de Bendegó e, o outro, ao Gran Circo El Asombro de Damasco, mas estava muito velho, fora-lhe diagnosticado um câncer no pâncreas.




Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 09h41
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Alckmin e a esfinge

Folha de São Paulo 

Passado o auge da crise do dossiê, Lula amplia favoritismo; resultado pode levar tucanos a reavaliar tática agressiva

A PESQUISA Datafolha que este jornal publica hoje reforça uma hipótese para a leitura das variações de intenção de voto desde as primeiras sondagens visando à disputa pelo Planalto em 2006. O favoritismo de Luiz Inácio Lula da Silva tem se mostrado diretamente proporcional ao esfriamento do noticiário sobre desmandos éticos.
Escândalos graves e em sucessão, como os ocorridos na gestão petista, até aqui não demonstraram a propriedade de cristalizar-se na intenção de voto -não na escala necessária para subtrair a dianteira de Lula. Os dois momentos em que o favoritismo do petista esteve mais em risco coincidiram com o auge do escândalo do mensalão, no segundo semestre do ano passado, e a chamada crise do dossiê, na reta final do primeiro turno.
Nos 15 dias que antecederam a votação de 1º de outubro, período em que surgiu e cresceu no noticiário o escândalo do dossiê, a ascensão de Geraldo Alckmin tornou-se uma tendência. O tucano tinha 27% da preferência em 12 de setembro e obteve nas urnas mais de 38% (ou quase 42% dos votos válidos) no primeiro domingo de outubro. A trajetória de Lula, na mesma base de comparação, foi no sentido inverso: tinha 50% das intenções de voto e obteve pouco menos de 45% (cerca de 49% dos válidos) no dia do escrutínio.
Em campo no fim da semana passada, o Datafolha já havia detectado uma interrupção nessa tendência. A diferença entre Lula e Alckmin na simulação de segundo turno, que era de cinco pontos percentuais na véspera da votação, foi a sete pontos uma semana depois. Após a pesquisa publicada hoje, já se pode dizer que a preferência pela recondução do atual presidente voltou a recuperar-se no eleitorado. O petista agora supera o tucano por 11 pontos percentuais de margem -nos votos válidos, lidera por 56% a 44%.
À primeira vista, o desempenho surpreendente -porque agressivo- do candidato de oposição no primeiro debate televisivo não foi capaz de ampliar o apoio popular a Alckmin. Tampouco logrou evitar a reacomodação da preferência pelo petista em direção a níveis anteriores ao auge da crise mais recente.
É provável que o resultado desta pesquisa provoque na chapa tucano-pefelista nova rodada de discussões sobre qual estratégia adotar daqui por diante. A performance de Alckmin no debate da TV Bandeirantes gerou euforia no círculo de sua candidatura e preocupação no de Lula. Outra questão, à qual o Datafolha começa a lançar luz, é saber como o eleitor propenso a mudar de voto reage à escalada de ataques.
Até que ponto o "novo" Alckmin prega basicamente para convertidos -quando, para vencer, sua missão é converter adeptos do adversário- é um enigma que sua campanha terá pouco tempo para decifrar. Ou correrá o risco de ser devorada pela "esfinge" lulista em 29 de outubro.




Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 09h37
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O debate da Bandeirante no último domingo, foi sincero mostra faltar de projeto político para Nação, nenhum dos candidatos tem agenda política, apenas o mesmo receituário econômico do FMI. O ex-governador abandonou postura metódica e franciscana, parecia mais pastor no momento do culto, tentado exorcizar alguns demônios da corrupção do atual governo federal, só esqueceu de olha para os lados, seus obreiros nada lembram boas ovelhas no paraíso, já o presidente entrou numa defensiva, nada lembrar o candidato quase imbatível do inicio da campanha eleitoral, o mandatário do executivo federal deve está conta as horas e os minutos para termino do segundo turno.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 08h38
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   10 milhões ainda devem definir o voto

Para analistas, repercussão do debate não é medida só pela audiência, mas também pelo impacto que vem a seguir

Gabriel Manzano Filho / Estado de São Paulo

A repercussão do debate presidencial de anteontem na TV Bandeirantes, o tom com que ele for tratado no rádio, na mídia, nos telejornais, cria uma importante correia de transmissão entre os eleitores - e essa avaliação, tanto quanto o desempenho de cada candidato, pode, segundo especialistas, influir nos votos e alterar o quadro eleitoral.

'O debate criou a temperatura suficiente para atrair um grande número de eleitores. Ele não deverá ser medido só pela audiência, mas pelo impacto que tem em seguida', diz Mauro Paulino, diretor do instituto Datafolha. Como ele, o diretor do Cepac, Rubens Figueiredo, acha que é possível que a postura firme, agressiva, de Alckmin, possa causar algum impacto. 'Como Lula teve 50% e Alckmin 43% no primeiro turno', diz ele, 'temos apenas 7% de indecisos. Mas há outros 7% que admitiram que podem mudar seu voto. Já falamos aí de 14%, coisa de mais de 10 milhões de eleitores', calcula. É claro que o debate sozinho não basta, avisa Figueiredo, 'mas ele pode ser complementado pelos candidatos com outras ações dentro da campanha'.

Mauro Paulino lembra, também, que Alckmin já vinha subindo e Lula perdendo eleitores nos últimos dias do primeiro turno. Mas ele diz que é necessário aguardar as pesquisas (que o Datafolha já está fazendo), para avaliar o impacto do debate.

O diretor do instituto Vox Populi, Marcos Coimbra, é mais cauteloso. Acha que o tucano 'esteve um pouco melhor, mas precisava ter-se saído muito melhor'. Só algo extraordinário, diz ele, poderia alterar o quadro atual, e isso não chegou a acontecer. O que prevalece 'é a identificação do eleitor com seu candidato, depois de cinco meses de campanha e um intenso processo de decisão'. Coimbra avaliou 102 casos de segundo turno desde sua criação, em 1989, e constatou que em apenas um deles houve uma alteração dramática do quadro - foi quando Célio de Castro (PSB) venceu Amilcar Martins, na disputa pela Prefeitura de Belo Horizonte, em 1996.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 07h36
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   Dados de Lula e Alckmin não batem com a realidade

Candidatos escorregaram nos números e erraram em algumas comparações feitas no debate

Sérgio Gobetti, Leonardo Goy / Estado De São Paulo

Os dois candidatos à Presidência da República escorregaram nos números e falsearam algumas comparações no primeiro debate do segundo turno, realizado anteontem pela Rede Bandeirantes. Em boa parte das vezes, a omissão é o subterfúgido usado para ressaltar o que favorece o candidato e esconder o que lhe prejudica.

O petista Luiz Inácio Lula da Silva chegou a desafiar o tucano Geraldo Alckmin a comparar os investimentos em saneamento realizados nos oito anos do governo FHC (1995-2002) com os quase quatro anos de administração petista. 'Nenhum governo investiu tanto em saneamento básico como o nosso. Foram R$ 10 bilhões nesses quatro anos. São 14 vezes mais dinheiro disponibilizado', disse Lula.

Na realidade, o governo anterior destinou - pelo mesmo critério - R$ 13,5 bilhões para a área de saneamento, de acordo com estudo oficial divulgado pelo próprio Ministério das Cidades e pela Secretaria do Tesouro Nacional, em dezembro de 2004, já na gestão petista.

Além disso, tanto os R$ 10 bilhões do governo Lula quanto os R$ 13,5 bilhões de FHC não correspondem ao efetivo desembolso de recursos para as obras de saneamento. Representam o valor inicialmente disponibilizado, entre recursos do Orçamento e empréstimos do FGTS e do BNDES.

Mesmo contando esses financiamentos, de acordo com o Ministério das Cidades, o governo do PT aplicou efetivamente apenas R$ 3,4 bilhões até março deste ano - um terço do valor que aparece na propaganda oficial. Em apenas dois anos, entre 2001 e 2002, o governo FHC gastou igual quantia, quase integralmente por meio de recursos orçamentários.

Ao citar o Bolsa-Família, o presidente Lula acertou no número oficial - 11,1 milhões de famílias atendidas hoje -, mas omitiu que seu governo não partiu do zero nessa área. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso terminou seu segundo mandato com os programas que deram origem à iniciativa petista atendendo pouco menos de 6 milhões de famílias - mais precisamente 5.010.331 famílias no Bolsa-Escola e 966.553 no Bolsa-Alimentação.

Ao mostrar números sobre energia, Lula também derrapou. Desde o início do seu governo, foram acrescentados ao sistema elétrico nacional 12.509 megawatts, número inferior aos 13 mil MW que o presidente mencionou no debate. É um arredondamento nada insignificante. A diferença entre o número real, calculado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), e o dado citado por Lula, 500 MW, equivale a uma usina hidrelétrica de médio porte, como a de Cana Brava, no Rio Tocantins, que tem 456 MW de potência.

Outra obra na área de infra-estrutura citada por Lula no debate, a ferrovia Transnordestina, teve suas obras só iniciadas em junho deste ano. A previsão do governo é de que todas as obras estarão prontas em cerca de quatro anos. A ferrovia, de 1.800 quilômetros, ligará Eliseu Martins, no Piauí, aos portos de Pecém (CE) e Suape (PE).

Os candidatos também se equivocaram ao irem para o ataque. O tucano Alckmin, por sua vez, exagerou ao dizer que seu oponente tinha gasto mais em publicidade do que em saneamento. Restringindo-se às verbas orçamentárias, Lula já gastou R$ 413,5 milhões em publicidade e R$ 2,23 bilhões em saneamento.

O candidato do PSDB também errou ao dizer que Lula gastava R$ 8 bilhões por ano com o pagamento de 20 mil cargos de confiança. As gratificações pagas aos 19.925 cargos de Direção e Assessoramento Superior (DAS) da administração federal custaram, no ano passado, R$ 685,4 milhões, de acordo com o Boletim Estatístico de Pessoal do Ministério do Planejamento.

O ex-governador paulista também atacou o adversário por gastar R$ 700 milhões por ano com viagens e diárias, mas omitiu o fato de que o governo FHC gastava valor parecido. Foram R$ 2,35 bilhões de gastos no triênio 2003-2005, contra R$ 2,53 bilhões de 2000 a 2002.

Alckmin também disse que economizou R$ 4 bilhões em três anos, mas os dados de execução orçamentária do Estado de São Paulo mostram que as despesas de custeio aumentaram de R$ 10,6 bilhões em 2002 para R$ 13,7 bilhões em 2005, já descontado o efeito da inflação.

O tucano reprovou a atitude de Lula de comprar um avião no exterior e 'de luxo' para seus deslocamentos. Ele anunciou que pretende vender o Aerolula, se for eleito, como fez no governo do Estado. Segundo Alckmin, ele repassou os dois helicópteros que o governador tinha para a Polícia Militar - o que a Secretaria da Segurança Pública confirma.

Alckmin omitiu, no entanto, que os helicópteros são usados nos deslocamentos do governador sempre que necessário - ocasiões em que deixam de ser usado no combate ao crime.

COLABORAM RODRIGOPEREIRA, MARCELO GODOY, RENATA CAFARDO e SIMONE IWASSO



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 07h21
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Impacto do Bolsa Família depende da região

Valor Econômico

César Felício e Caio Junqueira
10/10/2006

Tapauá, uma pequena cidade com 3 mil famílias no interior do Amazonas, deu 9% de seus votos a Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, colocando-o em quarto lugar na eleição presidencial. O candidato do PSDB naquele ano, José Serra, ficou em primeiro. Este ano, Lula teve 80,1% da votação no município.

No quadriênio petista, o programa Bolsa Família passou a beneficiar 72,6% das famílias tapauaenses. Em Porto da Folha (SE), 64,5% das 6 mil famílias locais também recebem o benefício. Mas lá, a votação de Lula oscilou de 44% para 43% entre uma votação e outra e Lula perdeu a eleição para Geraldo Alckmin (PSDB).

Os dois resultados são um sinal de que as questões locais servem mais que o Bolsa Família para impulsionar a "força do povo" que os marqueteiros do PT tentam vender como o principal mote da campanha pela reeleição do presidente. Há influência entre número de beneficiários e desempenho favorável nas urnas, mas há condicionantes regionais. O Bolsa Família surte mais efeito eleitoral nos Estados em que a diferença a favor de Lula em relação a Alckmin é grande, como no Nordeste e no Norte. Por sua vez, nos Estados em que o tucano venceu, o programa não é determinante.

Para tentar medir o impacto do programa nas eleições, o Valor pinçou em todos os Estados, além do Distrito Federal, o resultado eleitoral das cinco cidades proporcionalmente mais beneficiadas pelo Bolsa Família. O resultado foi comparado com o das cinco cidades em que proporcionalmente o número de benefícios é menor.

As cidades foram divididas em em três faixas: na primeira, as 55 cidades em que o pagamento do benefício variou da faixa de 30% até 60% do total de famílias, além do Distrito Federal. Nessas cidades, a votação média de Lula praticamente não variou entre 2002 e 2006: foi de 44% para 47%. Lula perdeu em 19 destes municípios em 2002 e agora foi derrotado em 24. Na segunda faixa enquadram-se os 54 locais onde entre 60% e 80% das famílias são beneficiárias. Aqui, a votação média de Lula passou de 38% para 66%, e o total de derrotas caiu de 27 para 9.

O presidente mostra um crescimento brutal de seus votos nas cidades mais atendidas pelo Bolsa Família. No grupo das 21 cidades onde mais de 80% das famílias recebem o benefício, a votação média de Lula passou de 37% para 78%, um crescimento de 108% em quatro anos. Em 2002, Lula havia ganho em 8 das 21 cidades. Neste ano, foi derrotado em uma: Viçosa do Ceará. Mas todas estas estão no Nordeste.

Praticamente a metade (49,8%) do total nacional dos benefícios do Bolsa Família são pagos na região, e é lá que que fica claro o predomínio do fator regional sobre o assistencialista. Lula cresce tanto nas cidades com menor incidência do programa quanto nas mais atendidas.

Em Pernambuco, a votação de Lula em relação a 2002 cresceu nos cinco municípios onde a parcela das famílias que recebem a Bolsa ultrapassa 75%. Em Manari - cidade de mais baixo IDH do Brasil - por exemplo, o percentual de Lula foi de 16% para 77%. Mas o petista também registrou aumento de votação em quatro dos cinco municípios onde os beneficiários das Bolsas não passam de 28% das famílias. Só perdeu votos na ilha de Fernando de Noronha.

Na Bahia, o resultado é o mesmo: Lula aumenta sua votação nas cinco cidades onde a inclusão no programa oscila entre 72% e 75% das famílias, como Matina, onde pulou de 33% para 58%. Mas o mesmo ocorre nos cinco municípios onde os incluídos ficam entre 17% e 26%. Em Candeias, onde Lula já havia obtido 76% em 2002, o petista cresceu ainda mais, para 83%.

"Fica claro que Lula recebeu grande votação no Nordeste por uma gama de fatores, onde o Bolsa Família é marginal. Entra aí a identificação com a população local e as dificuldades de a oposição fazer o mesmo. Há uma superestimação do efeito", diz a economista Lena Lavinas, da UFRJ.

Para o economista da FGV do Rio, Marcelo Neri, o Bolsa Família vem no fim da fila dos programas sociais com impacto político. "Acho que o Bolsa Família não é particularmente forte para o ciclo eleitoral porque crianças pobres não são tão valorizadas quanto adultos pobres. Política de salário mínimo, por exemplo, é muito mais atrativa do ponto de vista eleitoral justamente por este efeito. No Bolsa Família, a densidade de eleitores por benefício é menor do que em outras políticas", disse.

Ex-secretário municipal do Trabalho no governo petista de Marta Suplicy na cidade de São Paulo, o economista Márcio Pochmann admite o impacto político, mas o relativiza. "Programas de transferência de renda consolidam a preferência eleitoral de quem já se mostra suscetível à adesão política", disse, citando a própria experiência em São Paulo: "Ouvi de beneficiados das políticas de Marta Suplicy que não iriam votar nela, em função da criação de taxas e impostos. Quando questionei o fato deles não pagarem mais impostos, responderam-me que souberam disso pelos jornais", relembrou.

Para Pochmann, a explicação está na despersonalização destes programas. "O benefício é universal e tudo o que uma pessoa pobre precisa fazer para recebê-lo é obedecer as condicionalidades. Isto faz com que o beneficiado não se sinta tão dependente do agente pagador, sobretudo nos lugares mais permeáveis a influências externas da mídia e da classe média, como a região Centro-Sul e as grandes cidades ", disse.

Nos Estados onde Lula perdeu, a tendência foi o petista ir mal tanto nas cidades mais atendidos pelo programa, como nas cidades com menos Bolsa Família. No Mato Grosso do Sul, por exemplo, a votação de Lula recuou tanto nas cinco cidades onde o programa beneficia de 8% a 13% das famílias como nos cinco municípios onde o pagamento chega a uma faixa de 36% a 49% do total, ficando atrás de Alckmin em todas.

Nos Estados onde o o universo da população atendida é relativamente menor, a relação entre Bolsa Família e eleição é ainda mais tênue. No Rio, os cinco municípios com maior incidência do programa atendem cerca de 30% das famílias. Lula perdeu em quatro deles. Nos cinco municípios fluminenses onde o programa é reduzido, atendendo de 5% a 7% das famílias, Lula ganhou em todos.

Das 34 derrotas que Lula sofreu no universo das 131 cidades campeãs de atendimento do Bolsa Família, 25 foram nos 10 Estados onde perdeu a eleição e no Distrito Federal. Entre as 80 cidades analisadas dos Estados onde o petista ficou em primeiro lugar, a vantagem sobre Alckmin é de 71 a 9. "Isto mostra que a apropriação eleitoral do programa não é linear. Ocorreu com mais intensidade no Norte e no Nordeste, por fatores que vão além da ação do governo", diz Lavinas.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 07h17
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Onde estão os programas de governo dos candidatos?

Valor Econômico


10/10/2006

No dia seguinte ao primeiro debate entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-governador Geraldo Alckmin, a discussão obrigatória nos meios políticos e entre os eleitores foi a de quem ganhou o debate. Certamente, não foi o eleitor. Os dois candidatos a um mandato presidencial de quatro anos se ocuparam das agressões pessoais ou dos relatos de realizações próprias - obras de um ou outro, como governador de São Paulo ou como presidente da República - que não passam a mais pálida idéia do projeto que ambos têm para o Brasil. Realizações tópicas estão longe de dar uma idéia de conjunto. Ataques mútuos estão longe de se constituir em debate ético.

O debate ético entre dois contendores à Presidência da República, por exemplo, não poderia prescindir de um bom e elevado debate sobre a reforma política que ambos afirmam apoiar. Dada a extensão dos dois últimos escândalos, o do mensalão e o das sanguessugas, é no mínimo razoável pensar que o sistema político incentiva a corrupção. Na base deles está a pouquíssima organicidade partidária do sistema político brasileiro, que facilita traições em troca de favores ou corrupção; que sobrevive de negociações individuais com parlamentares; que torna o poder econômico determinante numa eleição. Discutir a fidelidade partidária, a forma de financiamento dos partidos e campanhas, o sistema proporcional para as eleições para os legislativos e até a possibilidade de instituição de listas de votação - esses são temas que podem assustar a maioria dos políticos eleitos pelo sistema atual, mas o debate em torno deles é fundamental. O mínimo que os eleitores precisam saber é se os candidatos têm análise e visão aprofundadas sobre as raízes dos problemas políticos que abalaram a República nos últimos anos.

Faltou ainda, lamentavelmente, um debate sobre a política econômica que se quer para os próximos quatro anos. O país vem de dois governos tucanos e um petista que tocaram uma política monetária baseada em juros altíssimos, sem tocar em questões importantes para o crescimento do país. Os dois candidatos falam em crescimento - um é do mesmo partido de FHC, cujos dois mandatos deixaram a desejar nesse quesito; e o outro é presidente há quase quatro anos e deixa um legado pífio de taxas de crescimento. É natural que eleitores, de um ou outro, fiquem curiosos com o pensamento de cada um sobre como sair do marasmo econômico. Fórmulas gerais não contentam mais. Os argumentos de que basta cortar gastos para que, num passe de mágicas, o Brasil volte a crescer - e daí se corte juros e carga tributária -, como diz o programa de Alckmin, ou a sugestão de que o país agora pode ter um desenvolvimento auto-sustentado, fruto de uma política ortodoxa de quatro anos, como afirma o programa petista, não bastam. O país vive há três eleições de propostas que não se realizam. Hoje estão na disputa um candidato de um PSDB que já teve dois mandatos presidenciais e um postulante que cumpre um primeiro mandato pelo PT. Os dois já sabem o que é factível, quando se senta na cadeira de presidente, e o que é um mero discurso eleitoral. No mínimo, deveriam considerar que o eleitor tem inteligência e discernimento - e apresentarem propostas concretas em relação à economia.

É lamentável que o país, após amargar tantos escândalos, agora veja esses mesmos episódios encobrirem um real debate sobre o que se quer para o país. O debate ético é fundamental, mas até ele exige alto nível. Ligar a televisão e assistir uma luta de boxe, em vez de propostas e idéias, é desalentador. As armas usadas pelos dois candidatos foram assuntos requentados, de amplo conhecimento público. Bater e rebater insistentemente na mesma tecla é, também, subestimar o discernimento do eleitor. O debate sobre quem é mais honesto ou mais corrupto, agora, foge à órbita dos dois candidatos. Daqui até o dia 29 de outubro, essa avaliação vai ser feita pelo eleitor e será considerada no seu voto. Nesse período, outros assuntos devem ser colocados, para dar condições de decisão aos que vão escolher o próximo presidente da República. Além dos nomeados acima, por exemplo, a educação. O país desenvolveu um certo consenso sobre o fato de que o crescimento sustentável passa pela educação de qualidade. O que os dois candidatos têm a dizer sobre isso?



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 07h12
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Onde estão os programas de governo dos candidatos?

Valor Econômico


10/10/2006

No dia seguinte ao primeiro debate entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-governador Geraldo Alckmin, a discussão obrigatória nos meios políticos e entre os eleitores foi a de quem ganhou o debate. Certamente, não foi o eleitor. Os dois candidatos a um mandato presidencial de quatro anos se ocuparam das agressões pessoais ou dos relatos de realizações próprias - obras de um ou outro, como governador de São Paulo ou como presidente da República - que não passam a mais pálida idéia do projeto que ambos têm para o Brasil. Realizações tópicas estão longe de dar uma idéia de conjunto. Ataques mútuos estão longe de se constituir em debate ético.

O debate ético entre dois contendores à Presidência da República, por exemplo, não poderia prescindir de um bom e elevado debate sobre a reforma política que ambos afirmam apoiar. Dada a extensão dos dois últimos escândalos, o do mensalão e o das sanguessugas, é no mínimo razoável pensar que o sistema político incentiva a corrupção. Na base deles está a pouquíssima organicidade partidária do sistema político brasileiro, que facilita traições em troca de favores ou corrupção; que sobrevive de negociações individuais com parlamentares; que torna o poder econômico determinante numa eleição. Discutir a fidelidade partidária, a forma de financiamento dos partidos e campanhas, o sistema proporcional para as eleições para os legislativos e até a possibilidade de instituição de listas de votação - esses são temas que podem assustar a maioria dos políticos eleitos pelo sistema atual, mas o debate em torno deles é fundamental. O mínimo que os eleitores precisam saber é se os candidatos têm análise e visão aprofundadas sobre as raízes dos problemas políticos que abalaram a República nos últimos anos.

Faltou ainda, lamentavelmente, um debate sobre a política econômica que se quer para os próximos quatro anos. O país vem de dois governos tucanos e um petista que tocaram uma política monetária baseada em juros altíssimos, sem tocar em questões importantes para o crescimento do país. Os dois candidatos falam em crescimento - um é do mesmo partido de FHC, cujos dois mandatos deixaram a desejar nesse quesito; e o outro é presidente há quase quatro anos e deixa um legado pífio de taxas de crescimento. É natural que eleitores, de um ou outro, fiquem curiosos com o pensamento de cada um sobre como sair do marasmo econômico. Fórmulas gerais não contentam mais. Os argumentos de que basta cortar gastos para que, num passe de mágicas, o Brasil volte a crescer - e daí se corte juros e carga tributária -, como diz o programa de Alckmin, ou a sugestão de que o país agora pode ter um desenvolvimento auto-sustentado, fruto de uma política ortodoxa de quatro anos, como afirma o programa petista, não bastam. O país vive há três eleições de propostas que não se realizam. Hoje estão na disputa um candidato de um PSDB que já teve dois mandatos presidenciais e um postulante que cumpre um primeiro mandato pelo PT. Os dois já sabem o que é factível, quando se senta na cadeira de presidente, e o que é um mero discurso eleitoral. No mínimo, deveriam considerar que o eleitor tem inteligência e discernimento - e apresentarem propostas concretas em relação à economia.

É lamentável que o país, após amargar tantos escândalos, agora veja esses mesmos episódios encobrirem um real debate sobre o que se quer para o país. O debate ético é fundamental, mas até ele exige alto nível. Ligar a televisão e assistir uma luta de boxe, em vez de propostas e idéias, é desalentador. As armas usadas pelos dois candidatos foram assuntos requentados, de amplo conhecimento público. Bater e rebater insistentemente na mesma tecla é, também, subestimar o discernimento do eleitor. O debate sobre quem é mais honesto ou mais corrupto, agora, foge à órbita dos dois candidatos. Daqui até o dia 29 de outubro, essa avaliação vai ser feita pelo eleitor e será considerada no seu voto. Nesse período, outros assuntos devem ser colocados, para dar condições de decisão aos que vão escolher o próximo presidente da República. Além dos nomeados acima, por exemplo, a educação. O país desenvolveu um certo consenso sobre o fato de que o crescimento sustentável passa pela educação de qualidade. O que os dois candidatos têm a dizer sobre isso?



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 07h10
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Gustavo Ioschpe

Folha de São Paulo

Nasce um presidente?

SE ALCKMIN ganhar essas eleições, o divisor de águas dessa campanha terá sido o debate deste domingo. Até ele, o ex-governador era o anti-Lula, o picolé de chuchu que não havia dito a que viera e estava no segundo turno com uma campanha insossa e tímida, levado pela incomum capacidade petista-tabajara de cavar sua própria sepultura. No debate, o tucano mostrou pela primeira vez a pinta de um presidente.
Até um surdo entenderia o desfecho do debate. Alckmin parecia tranqüilo, mas firme, citando uma profusão de dados e tecendo seus raciocínios sem consultar dados. Lula bebia água a cada pausa, leu todas as perguntas de um script visivelmente preparado por terceiros e recorria a seus papéis cada vez que precisava citar um número. Olhava para a platéia, para os lados, pediu um direito de resposta que foi negado, interrompeu a fala alheia. Parecia cansado e saiu apressado. No que se disse ali de relevante, e foi pouco, também a vantagem foi do tucano.
Primeiro, por indagar com veemência de onde havia vindo o dinheiro da compra do dossiê. Lula jogou a investigação para a PF (Polícia Federal, não o "por fora" do escândalo anterior).
Invocou uma tal de "lógica da ética", embaralhando dois ramos distintos da filosofia: o governante honesto não é o que previne a corrupção, mas o que a pune quando a encontra, já que a corrupção é algo natural do ser humano e um presidente não pode saber de tudo o que ocorre no governo.
Ocorre que o dossiê não foi (espera-se) obra do governo, mas de seu chefe de campanha, e os envolvidos eram seus "companheiros". Acreditando-se que não sabia, não seria preciso chamar a PF: bastaria chamá-los e perguntar.
O segundo ponto foi a recusa de Lula de tornar públicos os gastos do cartão de crédito da Presidência. Seriam de R$ 700 milhões, segundo Alckmin. Não tenho idéia se o valor é esse e, se for, se há algo ilícito, mas a indisponibilidade do presidente de abrir suas contas é por si escandalosa. Esse dinheiro é nosso, presidente!
Alckmin também foi duro ao criticar a política externa, mencionando as submissões a Bolívia e Argentina.
Lula invocou a solidariedade entre forte e fraco para justificar seu compadrio a vizinhos como se fosse função do presidente de um país rico como o Brasil ajudar os pobres de alhures. Só falta agora estender o Bolsa Família aos bolivianos.
Houve outras farpas, ataques e contra-ataques. Muito pouca substância. É deplorável? Claro. Mas não se pode esperar uma discussão programática em intercâmbios de dois minutos. Esses eventos são mais para definir postura do que outra coisa. Alckmin venceu. O revide será vigoroso.

 

Há duas semanas, mencionei aqui o envolvimento de Freud Godoy no caso do dossiê. A PF e o Ministério Público agora o isentam de culpa. Mantido esse parecer ao final das investigações, terei cometido uma injustiça e manchado a reputação de um inocente, pelo que peço desculpas.

GUSTAVO IOSCHPE é mestre em desenvolvimento econômico pela Universidade Yale (EUA)



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 07h04
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CARLOS HEITOR CONY

Folha de São Paulo

Quem ganhou o debate

RIO DE JANEIRO - O debate de domingo na Rede Bandeirantes, em que pese a eficiência técnica de sua produção, foi de pasmosa inutilidade política e eleitoral. Se a parte técnica merece elogios, o conteúdo a cargo dos dois presidenciáveis foi de uma mediocridade desoladora.
Temo que os demais debates repitam as mesmas acusações, as mesmas explicações, as mesmas insinuações -a mesmice substituindo o que deveria ser realmente um debate de idéias e de programas.
Não faltarão pesquisas assegurando que Lula foi melhor que Alckmin ou o contrário, Alckmin melhor que Lula. A agressividade de ambos substituiu o raciocínio claro e convincente. Impressionante como Lula citou números estratosféricos de suas realizações, milhões disso ou para isso, milhões de pessoas alimentadas, milhões de empregos distribuídos.
Em todo caso, dentro do clubismo esportivo que cerca a política nos instantes decisivos, como os de agora, se me perguntarem a quem o debate mais favoreceu, eu diria que Alckmin foi beneficiado -não pelas respostas às perguntas que deu e formulou, mas pela sua exposição na mídia que cobriu o debate.
Lula é um animal político mais do que conhecido, amado ou desprezado por uma legião de eleitores. Alckmin é novo, um rosto, uma voz ainda desconhecida para grande parte do eleitorado. Pensando bem, os chamados indecisos já conhecem Lula de sobra e, se continuam indecisos, é porque não pretendem votar nele.
A opção então, é conhecer e avaliar o seu oponente, e é neste particular que os debates favorecerão o candidato tucano, independentemente do conteúdo, das acusações e das defesas que apresentar nas próximas ocasiões.
Lula precisará criar um fato de grande impacto para motivar os indecisos a votar nele.




Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 07h00
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ELIANE CANTANHÊDE

Folha de São Paulo

Perguntar não ofende

BRASÍLIA - No segundo bloco do debate de domingo na TV Bandeirantes, Lula crispou o rosto, começou a ficar vermelho e deu dois passos miúdos para trás. Pensei: ele não está suportando a pressão, vai perder as estribeiras.
Mas Lula não partiu para cima de Alckmin nem soltou palavrões. Foi em busca de um personagem. Tentou ser agressivo, não funcionou. Tentou fazer graça por ler as perguntas, não foi engraçado. Tentou ser irônico, não havia clima. Depois de quatro anos sem debates e entrevistas, pareceu enferrujado.
O melhor momento de Lula foi num raro espaço para marcar diferenças de fundo: a política externa. Sereno, defendeu a ampliação dos horizontes para a África e a Ásia, criticou a pressão para esmagar um país miserável como a Bolívia e concluiu com seu melhor argumento: as exportações dobraram.
Esse lapso positivo -e destoante da sua performance em geral- comprova que não adianta caprichar só na forma nem entupir o telespectador-eleitor com números.
Quando tem resposta, conteúdo, argumento, Lula convence e vai bem. Quando não tem, segue o mesmo roteiro: vacila, se irrita, ironiza.
Nem sempre dá certo. "Você pode enganar todos algum tempo, ou alguns o tempo todo, mas não dá para enganar todos o tempo todo."
No final, a festa no estúdio foi dos tucanos, enquanto os petistas saíam discretamente. A imagem dizia muita coisa sobre as avaliações das duas campanhas, que pode ou não coincidir com a avaliação de quem mais interessa: o eleitorado, especialmente o indeciso, o que vota nulo ou o que é passível de mudar de voto, para um lado ou para outro.
O fato é que a estréia demarcou o território do segundo turno: Lula tentando trazer FHC para o debate, e Alckmin insistindo na ética: "De onde veio o dinheiro do dossiê?" Sem resposta, Lula se imobiliza e deixa a dúvida: será que a resposta é pior do que não tê-la?


elianec@uol.com.br



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 06h58
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CLÓVIS ROSSI

Folha de São Paulo

A assombração

SÃO PAULO - É complicada a vida de um governante que, chamado reiteradamente de mentiroso por seu principal oponente do momento, não consegue demonstrar, em momento nenhum, que quem mente é o acusador. Aconteceu domingo com Luiz Inácio Lula da Silva ante um Geraldo Alckmin subitamente transformado de "picolé de chuchu" em atirador de facas.
O debate da Band serviu para demonstrar, uma vez mais, que, apertado, Lula entrega os companheiros sem a menor cerimônia para tentar livrar-se do fantasma que persegue o seu governo e o seu partido. Já havia ocorrido em entrevistas a William Bonner/Fátima Bernardes e, antes, a Pedro Bial, todos da Globo.
O presidente entrega seus auxiliares e seus amigos para poder refugiar-se no cantochão de que não pode saber de tudo o que acontece nos cantos de seu governo, em especial, os cantos escuros, que não são poucos.
Mesmo que seja verdadeiro, o argumento tem, por baixo, por baixo, dois graves inconvenientes:
1 - Dá a Alckmin um habeas corpus preventivo. Se Lula não sabe do que se passa em seu próprio governo, como Alckmin poderia saber, ainda mais quando a suspeita recai sobre governo alheio (no caso o de Fernando Henrique Cardoso)?
2 - Permite a dúvida que foi explicitada na pergunta do jornalista Franklin Martins. Se Lula não sabe das coisas, quem pode garantir que, no futuro, não se repitam os crimes cometidos (e confessados) às costas do presidente? Pior: quem pode garantir que neste exato minuto algum "aloprado", como diz Lula, não esteja tramando algum novo trambique em alguma sala do próprio Palácio do Planalto?
Significa dizer que a assombração continuará pairando sobre um eventual segundo governo Lula, mesmo que não seja suficiente para impedir agora a sua vitória.


crossi@uol.com.br


Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 06h57
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O primeiro debate

Folha de São Paulo 

Estratégia de Alckmin prevaleceu sobre a de Lula; vencedor do embate na TV depende de avaliação dos eleitores

A MAIOR surpresa no primeiro debate entre Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin foi a agressividade do candidato tucano. O ex-governador de São Paulo despiu-se da continência verbal e gestual que tem marcado a sua carreira política e partiu para o ataque aberto e sem tréguas contra seu adversário.
Se a estratégia de Alckmin era atrair Lula para a discussão sobre os desmandos na gestão petista e manter o candidato à reeleição na defensiva, o postulante do PSDB logrou implementá-la com sucesso -em especial na primeira parte do encontro realizado no domingo pela TV Bandeirantes. Se o objetivo do presidente era minimizar a discussão sobre ética a fim de concentrar-se em comparações com o governo FHC favoráveis a sua gestão, não conseguiu alcançá-lo.
Lula pagou o preço do desprezo com que vem tratando o exercício do contraditório. Um político que não se presta a entrevistas coletivas regulares, que faltou aos debates do primeiro turno, que, acostumado à bajulação, fica contrariado diante de perguntas francas dificilmente se sairia bem num evento como o de anteontem. O pasmo do presidente ficou patente já em sua primeira intervenção: nem sequer cuidou de cumprimentar os telespectadores que assistiam ao encontro.
Atestar que o presidenciável do PSDB conseguiu cumprir melhor seu "plano de vôo", no entanto, não significa afirmar que Alckmin tenha "vencido" o debate. Essa é uma avaliação que depende de como os eleitores que assistiram ao evento enxergaram o choque entre o petista e o tucano -uma percepção no mais das vezes subjetiva. Igualmente temerário é especular à quente, ainda sem uma pesquisa confiável, acerca do impacto dessa percepção na intenção de voto.
O que é líquido e certo é que o Brasil ganhou com essa exposição, tão aberta quanto as normas do debate permitiam, dos dois políticos que pretendem presidir a República de 2007 a 2010. A agressividade -tom proposto pelo tucano, mas aceito e "retribuído" pelo petista ao longo das duas horas e meia do encontro- não descambou para fora da arena pública, apesar do uso, de parte a parte, de palavras fortes. Contida nesses limites, ajudou a conferir temperatura à discussão e marcou a tentativa de cada candidato de diferenciar-se em relação a seu adversário.
A nota decepcionante, mais uma vez, ficou por conta da baixa preocupação, tanto de Lula como de Alckmin, com o eixo programático. A favor do crescimento econômico, da expansão do emprego, da distribuição da renda, da queda dos juros, da eficiência do gasto público, de avanços na saúde e na educação -e da cura do câncer, alguém poderia acrescentar- todos são. Como chegar lá, que é o que faz a diferença numa eleição com dois candidatos, ninguém diz.
Fica a sensação de que nem Lula nem Alckmin têm noção exata de quais seriam suas prioridades de governo a partir do ano que vem. Ou pior: sabem muito bem o que devem fazer, mas estão reservando as "maldades" para depois da eleição.




Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 06h55
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Exploração de denúncias contra Lula marca debate

Valor Econômico

Maria Cristina Fernandes e Caio Junqueira
09/10/2006

A pancadaria começou no primeiro minuto como prenunciava o breve e frio aperto de mãos cinco minutos antes do início do debate de ontem na Rede Bandeirantes. "O presidente da República é o comandante das Forças Armadas, da Abin e da Polícia Federal. É um dos homens mais informados do país. De onde veio o dinheiro para comprar o dossiê fajuto, candidato?", disparou o candidato do PSDB à Presidência da República Geraldo Alckmin.

Marisa Cauduro/Valor Os candidatos Alckmin (à esquerda) e Lula (à direita) entre o mediador do debate, Ricardo Boechat: acusações mútuas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que ao contrário de Alckmin, não fez os cumprimentos de praxe aos telespectadores ao falar pela primeira vez, disse que a candidatura dele tinha sido a única prejudicada pelo dossiê, e recorreu ao dossiê Cayman, que me 1998, preferiu denunciar a usá-lo na campanha. Referia-se a Alckmin como governador quando era chamado de candidato pelo tucano.

"Veja telespectador, ele não sabe. Um trabalhador que ganha salário mínimo viveria 416 anos com aquele R$ 1,7 milhão. Não teve coragem de perguntar ao seu churrasqueiro nem ao diretor do Banco do Brasil.", disse Alckmin. "Não sou policial, sou presidente da República. Talvez meu adversário tenha saudades do tempo da ditadura quando em meia hora já se sabia de tudo. Não vou culpar inocentes. Quando a Polícia Federal tiver a resposta serei o primeiro a ter interesse em divulga-la", respondeu Lula.

Em seguida o presidente perguntou se Alckmin sabia que Barjas Negri, que assumiu a secretaria de Habitação do Estado, a o deixar o ministério da Saúde, tinha envolvimento com a máfia dos sanguessugas. Alckmin respondeu que Lula não tinha moral para falar de ética. Lula retrucou dizendo que nunca impediu o Congresso de fazer uma única CPI, e disse que Barjas Negri foi presidente da CDHU, autarquia do governo de São Paulo que tem um dos mais altos orçamento do Estados e que uma CPI proposta para investigá-la foi barrada.

"Quanta mentira", retrucou Alckmin, mantendo o tom inciso com que iniciou e terminou o debate. O candidato tucano citou questões regimentais para o não funcionamento das CPIs paulistas e disse que a CPI dos Correios só saiu por força de Roberto Jefferson.

No bloco seguinte as CPIs da Assembléia Legislativa de São Paulo voltaram à cena e a responder Alckmin disse que Lula não precisaria torturar ninguém para saber a origem do dinheiro, bastaria perguntar aos amigos do presidente, "seus amigos do PT".

Lula perguntou sobre as diferenças entre as políticas sociais entre os governos federal e paulista. " A primeira diferença é de caráter, citou o dizia Mário Covas". O candidato do PSDB citou cinco ministros denunciados. " O estranho não é ter ministro envolvido, é não ter investigação. O Valeiroduto começou no PSDB de Minas Gerais." E retrucou a referência a Covas. Disse que era um home de tanto caráter que não deixou que o PSDB apoiasse Fernando Collor e entrasse no seu governo. " O governador esqueceu onde começou a compra de votos nesse país, na aprovação da emenda da reeleição."

Lula seguidamente bateu na política de privatizações do PSDB e tentou caracterizar a sua gestão como a que tinha vendido patrimônio das estatais brasileiras. Alckmin disse que as privatizações dos governos do PSDB foram feitas em leilões públicos e que nada tem a ver com os escândalos do dólar na cueca. "É a única coisa que vocês sabem fazer" retrucou Lula.

Alckmin citou as palmas para Kofi Anan, secretário-geral da ONU, como se fossem para Lula no horário eleitoral gratuito. O presidente pediu direito de resposta. Alckmin reagiu. A produção do programa do programa não concedeu.

Mais nervoso do que Alckmin no início do debate, Lula só começo a ficar mais à vontade quando entrarão as questões mais temáticas. Guerrearam números, estatísticas e acusaram-se reciprocamente por obras inacabadas.

De um de outro lado, todos saíram do debate proclamando a vitória de seu candidato.

À platéia, do lado direito, estavam os ministros Márcio Thomás Bastos (Justiça), Dilma Rousseff, (Casa Civil), Luís Marinho (Trabalho), Luiz Dulci (Secretaria Geral da Presidência), Tarso Genro (Coordenação Política), Silas Rondeau (Energia), Celso Amorim, Itamaraty, Patrus Ananias (Desenvolvimento Social), além de Sérgio Gabriele, (presidente da Petrobras), Aldo Rebelo (PCdoB-SP), Marta Suplicy (ex-prefeita de Paulo) e os candidato derrotado ao governo de São Paulo Aloisio Mercadante.

À esquerda a bancada de Geraldo Alckmin, era composta pelos governador eleito de São Paulo , José Serra que chegou poucos minutos antes do início da transmissão, ao lado da mulher Mônica Serra, o presidente do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), além dos senadores Artur Virgílio (PSDB-AM) e Heráclito Fortes (PFL-PI) e do prefeito da capital Gilbert Kassab (PFL).



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 10h58
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Divergência entre aliados emperra campanha de Alckmin em 6 Estados

Valor Econômico

Raquel Ulhôa
09/10/2006

A aliança entre a senadora Roseana Sarney (PFL-MA), candidata ao governo do Maranhão, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva neste segundo turno das eleições é considerada pelo senador José Jorge (PFL-PE), candidato a vice-presidente na chapa do tucano Geraldo Alckmin, "uma atitude de alta traição" ao PFL. A Comissão Executiva Nacional do partido deve se reunir antes do segundo turno para discutir eventuais punições à senadora.

"Eu, particularmente, fico muito atingido por essa decisão da Roseana. Quando ela foi vítima do chamado 'caso Lunus' (episódio que derrubou a candidatura de Roseana a presidente, em 2001, depois que a Polícia Federal invadiu empresa da família e encontrou R$ 1,34 milhão em dinheiro), eu era ministro de Minas e Energia e pedi demissão em solidariedade a ela", afirmou o vice de Alckmin.

O Maranhão é um dos seis estados geradores de crise para a campanha de Alckmin na primeira semana após o primeiro turno das eleições. A sucessão de problemas na coligação PSDB-PFL expõe a fragilidade da articulação política da candidatura tucana, que no primeiro turno deixou acumular divergências nos estados. "Agora, são tantos os conflitos que seria preciso uma super cabeça pensante para resolvê-los", definiu um integrante do comando político.

Além do Maranhão, a candidatura Alckmin encontra dificuldades em sua base aliada principalmente no Rio de Janeiro, na Bahia, no Rio Grande do Norte, no Distrito Federal e em Goiás neste segundo turno. Faltaram, na avaliação de integrantes da campanha, estratégia política e credibilidade à candidatura.

O caso do Maranhão é típico. No primeiro turno, o PSDB negou apoio a Roseana e lançou candidato próprio. A senadora recebeu a visita de Alckmin e disse que ficaria neutra na disputa presidencial. Mas, nos últimos comícios, ela chegou a ensinar o eleitor a votar em Lula. Agora disputando o governo com Jackson Lago (PDT), Roseana explicitou o apoio ao presidente, que retribuiu publicamente.

Alckmin conduz as articulações para driblar crises. Tentou convencer o ex-senador Geraldo Melo (PSDB) a levar o PSDB do Rio Grande do Norte a apoiar o senador Garibaldi Alves (PMDB) ao governo estadual, que disputa com Wilma de Faria (PSB). Melo, que teve sua candidatura do Senado preterida pela coligação do PMDB, vem resistindo. Para dirigentes pefelistas, faltou ao PSDB firmeza para cobrar dos diretórios um critério de relacionamento com aliados.

No Rio, o deputado federal Eduardo Paes (PSDB) se lançou ao governo, interrompendo negociação de Alckmin com o pemedebista Sérgio Cabral e irritando o prefeito César Maia (PFL), que lançou a deputada Denise Frossard (PPS). O apoio do casal Garotinho, num encontro com Alckmin em São Paulo, provocou rompimento de Maia e Frossard. Depois de muita conversa, houve recuo. Desde o início, o prefeito faz críticas à condução da campanha.

Na Bahia, a divergência histórica entre PSDB e PFL provocou vários constrangimentos desde que o diretório estadual tucano precisou restringir às pressas evento programado para receber Alckmin, por causa de veto do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL). Na semana passada, nova saia justa. ACM marcou reunião de Alckmin com pefelistas, em Salvador, e o PSDB, às pressas, programou seu próprio evento. No discurso, o deputado Jutahy Júnior, presidente do PSDB local, cobrou apoio de Alckmin à gestão do petista Jaques Wagner, se for eleito presidente. Wagner derrotou o governador Paulo Souto (PFL).

Goiás e Distrito Federal também estão dando trabalho à coordenação da campanha e ao próprio Alckmin. Em Goiás, o senador Demóstenes Torres (PFL), derrotado na disputa para governador, se nega a apoiar Alcides Rodrigues (PP), candidato do ex-governador Marconi Perillo (PSDB). No Distrito Federal, a governadora tucana Maria de Lurdes Abadia se recusa a subir no palanque de Alckmin ao lado do governador eleito, José Roberto Arruda (PFL), que a derrotou.

No início da campanha, as críticas entre tucanos e pefelistas levaram à criação de um conselho político, integrado pelos presidentes dos dois partidos, senadores Tasso Jereissati (PSDB) e Jorge Bornhausen (PFL), os coordenadores do PSDB e do PFL - respectivamente senadores Sérgio Guerra e Heráclito Fortes -, e líderes na Câmara e no Senado. A senadora Lúcia Vânia (PSDB-GO) tem a missão de mapear divergências locais. O conselho foi ampliado para receber os presidentes do PPS e do PMDB, deputados Roberto Freire (PE) e Michel Temer (SP). O pemedebista Moreira Franco (RJ) também passou a integrar. Temer e Moreira foram os articuladores do apoio de Garotinho a Alckmin, com Tasso.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 10h54
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A crise do conflito entre PT e PSDB

Valor Econômico

Fernando Luiz Abrucio
09/10/2006

Tucanos e petistas dominam a cena política brasileira desde o impeachment de Collor, polarizando a disputa eleitoral desde 1994. Como escrevi recentemente, uma espécie de bipartidarismo presidencial foi predominante nas últimas quatro eleições, e o pleito de 2006 só confirmou esta regra. Aparentemente, portanto, os dois partidos estariam repetindo hoje a mesma luta pela hegemonia, sem nenhuma mudança no quadro de referências de ambos. Mas há indícios fortes de que o conflito entre eles já não é mais o mesmo. Na verdade, a briga entre PT e PSDB passa por uma crise que revela o esgotamento dos pilares que sustentavam tal competição.

Lula e Alckmin chegaram à fase final da eleição, porém, a divisão e a confusão marcaram suas campanhas no primeiro turno de 2006, a despeito da manutenção do bipartidarismo presidencial. Observe-se, primeiramente, a atual oposição. A escolha do presidenciável tucano foi um processo difícil. Depois de muito titubeio, os principais cardeais do partido escolheram um nome em que não apostavam todas as suas fichas. Só fizeram tal opção por acreditarem pouco nas chances eleitorais do ex-governador paulista e, especialmente, porque tinha havido uma renovação no PSDB, fruto do crescimento político da legenda, o que tornava difícil a decisão centralizada dos velhos tempos. Ademais, já havia dois concorrentes fortes para 2010, Serra e Aécio, e o olhar estava voltado mais para o futuro do que para o presente.

É bem verdade que vários caciques começaram a acreditar num destino melhor a partir do Dossiê Tabajara, uma dádiva eleitoral que levou o PSDB ao segundo turno - juntamente com a soberba do presidente Lula, que, ao faltar ao debate da Globo, perdeu os míseros votos (1,4% dos válidos) que lhe garantiriam a vitória na primeira etapa. Aécio foi peça-chave no primeiro turno, garantindo um excelente resultado em Minas. Outros nomes estaduais, como o ex-governador goiano, Marconi Perillo, também foram fundamentais. Mesmo assim, a chegada de Alckmin à fase final foi inesperada. Prova disso é que o partido não tinha nenhuma estratégia para o segundo turno, o que explica a maneira desastrada como se obteve e se divulgou o apoio da família Garotinho - enterrando de vez as chances de vencer no Rio de Janeiro.

Quais seriam as diferenças entre os dois partidos?

Do outro lado o problema não era a desconfiança em relação ao candidato presidencial. O temor estava concentrado nos efeitos negativos que o Partido dos Trabalhadores poderia causar na campanha de Lula. Até quinze dias antes das eleições, o impacto tinha sido muito pequeno. O petismo havia sido escondido do programa eleitoral e o vermelho quase desaparecera. O "lulismo", baseado na imagem do candidato e em suas políticas públicas, havia se tornado o ator principal do campo do governo. Contudo, com o surgimento do famoso Dossiê, já não dava mais para negar que o PT era o partido do presidente. Os "amigos", tal qual na crise de 2005, tinham se transformado nos maiores adversários de Lula.

Foram campanhas problemáticas, mas com sinais trocados. Do lado petista, o problema era o partido, ao passo que do lado tucano o fardo era o candidato. A realização do segundo turno pegou de surpresa a maioria das lideranças de ambos os partidos e, de fato, mudou o horizonte dos atores políticos. Se Lula vencer, grande parcela do PT será alijada do poder, sem nenhum pudor - principalmente a ala sindical-paulista. Uma vitória de Alckmin significará uma nova rodada de negociações no PSDB, para definir quem será a equipe governamental e como será a relação com os governadores de São Paulo e de Minas Gerais. Qualquer um deles vencerá por uma pequena vantagem sobre o outro, fazendo do próximo presidente o mais fraco desde Sarney - mais até do que Collor, que afinal fora eleito depois de 29 anos sem eleição direta.

Na verdade, as elites petistas e tucanas esperavam que o próximo mandato fosse de transição, levando talvez a um realinhamento partidário que colocaria um ponto final no bipartidarismo presidencial inaugurado, no plano eleitoral, em 1994. Não se sabe agora se isso será possível. Uma vitória de Alckmin torna Lula candidato a presidente no dia 1º de janeiro de 2007, com tudo de radicalização que isso possa significar - com a possibilidade, inclusive, de reviver o PT. Já a reeleição provavelmente não terá as mesmas chances de obter uma "concertação" política, uma vez que Alckmin, se derrotado, sairá como alguém com pretensões a liderar a oposição.

Não se trata de dizer, simplesmente, que o projeto do mandato de transição seria o melhor para o país. Numa democracia, o resultado das urnas é sempre um caminho melhor do que as decisões de cúpula. É possível que o presidente eleito consiga rearticular as forças políticas, mesmo que demore um tempo para isso. Também pode ser construído um cenário com um grau maior de confronto, mas o qual, ao fim e ao cabo, possa produzir mais consciência das elites políticas e sociais sobre uma nova rodada de reformas e, sobretudo, de como mudar a relação entre Estado e sociedade.

E aqui está o ponto mais relevante que a surpresa eleitoral do segundo turno trouxe à tona: a crise do conflito entre PT e PSDB está na dificuldade de ambos definirem o seu programa, bem como de repensar sua inserção social. Não por acaso é difícil saber quais seriam as diferenças entre um segundo governo Lula e uma gestão Alckmin. Como estratégia de campanha, ambos vão falar mais do passado do que do futuro, com ênfase na questão ética, mas com espaço ainda para execrar ou defender o período FHC. Alguém acredita, hoje, num discurso petista contra a privatização da Vale do Rio Doce? Do lado contrário, o candidato tucano não diz no que será diferente a sua política econômica daquela praticada por seu partido durante oito anos.

O fato é que PT e PSDB não imaginavam ter de agora redefinir suas posições e políticas - ou, então, justificar porque elas devem ser reafirmadas. Pior: não sabem a que público devem falar. Os votos mais desejados do segundo turno são os de Heloísa Helena e Cristovam Buarque, e eles seriam, em tese, mais esquerdistas. Mas quem estaria mais à esquerda hoje, Lula ou Alckmin? Todos estes conceitos precisam ser reformulados, pois a dicotomia entre petistas e tucanos tem de encontrar um novo discurso e uma nova prática.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 10h50
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   Presidente fica nas cordas

Dora Kramer / Estado de São Paulo 

O candidato Geraldo Alckmin pegou todo mundo de surpresa. Surpreendeu, principalmente, o adversário. O presidente Luiz Inácio da Silva ficou pelo menos dois dos cinco blocos - que seriam mais bem definidos se chamados de 'rounds' - completamente na defensiva, nas cordas.

Depois, recuperou-se um pouco e usou do recurso da ironia para manter certo equilíbrio numa situação que se avizinhava totalmente desequilibrada. Alckmin abriu o debate já fazendo referência à ausência de Lula nos outros debates e, na primeira pergunta, atacou forte, falando do dinheiro do dossiê contra os tucanos.

O presidente Lula, é claro, esperava questionamento sobre os escândalos, mas evidentemente não fazia idéia de que o tom de Alckmin fosse incisivo como foi. Aliás, pela reação dos correligionários do tucano presentes ao estúdio da TV Bandeirantes, nem o PSDB nem o PFL tinham noção de que o candidato teria desempenho tão veemente.

Tanto que o presidente nacional do PSDB, senador Tasso Jereissati, a certa altura brincou que o senador Arthur Virgílio - o mais agressivo dos líderes de oposição no Congresso - estava pedindo 'moderação' a Alckmin.

Troca de acusações, guerra de números e provocações que, em alguns momentos, quase terminaram em bate-boca marcaram ontem o primeiro debate do segundo turno da eleição presidencial, na TV Bandeirantes. Luiz Inácio Lula da Silva (PT)optou por ler as perguntas. Geraldo Alckmin (PSDB) tinha números na ponta da língua e adotou um tom incisivo até então inédito na campanha. O confronto quase desandou. 'É bom ir devagar com isso', disse o presidente. 'Respeito, candidato', afirmou o ex-governador, quando Lula tentou interrompê-lo.

O momento mais duro foi quando o tucano perguntou se Lula abriria o sigilo dos cartões corporativos que fazem as compras para o gabinete presidencial. Lula respondeu, repetindo várias vezes, com o cenho carregado: 'Não seja leviano!' Alckmin afirmou que não joga 'nas costas de amigos os problemas do governo' e bradou: 'Eu assumo os problemas!' Lula devolveu: 'Meu adversário decora chavões para participar de debates. Os tucanos já governaram muitos Estados e só sabem cortar gastos nos salários do povo. Fizemos o País crescer como nunca nos últimos 20 anos.'

Alckmin perguntou: 'Candidato Lula, de onde veio o dinheiro sujo, R$ 1,75 milhão para comprar um dossiê falso?' Lula reagiu: 'Eu quero saber quem arquitetou esse plano maquiavélico. Quero saber quem fez essa negociata, porque o único ganhador nesse trambique todo foi o meu adversário.' Ao final, garantiu que a Polícia Federal 'vai descobrir'. O tucano ironizou: 'Não sabe também. Não teve nem a curiosidade de perguntar pro seu churrasqueiro, para o seu diretor do Banco do Brasil, para o seu secretário do Trabalho do ministério, para o presidente do seu partido.'

Na defensiva, Lula rebateu: 'Respondo com muita clareza. Eu não sou policial. Existem regras para investigar. O que é pertinente nós fizemos, afastamos todos os envolvidos. Não tenho medo de debater a verdade.'

O presidente acusou Alckmin de agir como se pretendesse arrancar informações sob tortura, 'como acontecia na ditadura'. Alckmin respondeu: 'Não precisa torturar para saber de onde veio o dinheiro, é só perguntar aos membros do PT. É só chamar os seus amigos de 30 anos e perguntar.'

Lula partiu para o ataque. Disse que o esquema dos sanguessugas começou no governo Fernando Henrique e falou de Barjas Negri, ex-ministro tucano citado no escândalo que depois foi secretário de Habitação do governo Alckmin. O ex-governador reagiu: 'Não meça as pessoas pela sua régua. Não tenho em meu governo ministros e assessores condenados', disse. 'O escândalo dos sanguessugas é do seu governo. Se começou antes, deveria ter punido.'

Alckmin foi cobrado pelos 69 pedidos de CPIs recusados pela Assembléia paulista, durante sua gestão. 'Não movi um dedo para parar nenhuma CPI', acrescentou Lula. Alckmin deu resposta irônica: 'Quanta mentira, como Lula mudou! As CPIs (federais) só saíram porque (o então deputado) Roberto Jefferson contou a verdade para o Brasil. Houve crise no PT porque alguns deputados tinham assinado a CPI. AS CPIs saíram porque o governo foi derrotado.'

O tucano fez propostas de apelo popular. Depois de condenar a compra de um avião para a Presidência, citou países cujos governos não têm avião e prometeu: 'Vou vender esse Aerolula e fazer cinco hospitais com o dinheiro.' Ele disse que é diferente de Lula: 'Nós somos diferentes. São Paulo tinha dois aviões, eu vendi os dois. Tinha dois helicópteros, eu doei os dois para a Polícia Militar. É preciso criar um clima de respeito com o dinheiro público.'



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 10h34
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ELEIÇÕES 2006 / ESTADOS

Folha de São Paulo

Nanicos crescem e encolhem bancadas de PT, PSDB e PFL

Dez siglas, como PV e PHS, ampliaram em 64 o número de seus filiados no Legislativo comparado com o que têm hoje

Para analistas, decepção com PT fez vários eleitores "órfãos da esquerda", e escândalos afetaram as legendas mais tradicionais

THIAGO REIS
JOÃO CARLOS MAGALHÃES
DA AGÊNCIA FOLHA

Dez partidos considerados nanicos ganharam, nestas eleições, 64 cadeiras a mais do que possuem hoje nas Assembléias Legislativas do país, encolhendo as bancadas das grandes legendas (PT, PSDB e PFL). Só o PMDB ganhou um deputado e foi para 166.
Dentre os grandes, o PT foi o partido que mais perdeu vagas nos Legislativos estaduais: 12. Hoje, tem 138 parlamentares. Em 2007, terá 126. O PFL perdeu sete (de 126 para 119); o PSDB, três (de 151 para 148).
Os dez partidos que ampliaram seus representantes por todo o país são PRP, PTN, PAN, PT do B, PHS, PRTB, PSC, PSDC, PTC e PV.
Para o analista político Marco Antonio Teixeira, da FGV-SP (Fundação Getúlio Vargas), uma das principais causas para a votação expressiva nos partidos nanicos foi o esforço deles em romper a cláusula de barreira. "Houve uma priorização no sentido de tentar fazer o maior número de parlamentares possível para sobreviver."
Segundo ele, no entanto, houve também os "puxadores de votos". Ele cita o caso de Fernando Gabeira (PV), que foi o deputado federal mais bem votado do Rio, mas que pediu e conseguiu votos para deputados estaduais de São Paulo.
O PV, aliás, foi o que mais cresceu entre os partidos pequenos. Ganhou 20 novos deputados estaduais em dez Estados. Em sete deles, o partido não possui nem sequer um representante hoje.
"Houve uma campanha ostensiva para aumentar o voto na legenda. Além disso, muita gente ficou órfã da esquerda, decepcionada com o que o PT fez. É normal que os votos da centro-esquerda migrem para o PV", diz o cientista social Claudio Couto, da PUC-SP.
Os dois concordam ainda que os últimos escândalos afetaram de fato os grandes partidos.
"O mensalão, os sanguessugas e a não-cassação dos parlamentares contribuem para um desgaste muito grande da classe política. Quem tende a ser mais atingido por esse tipo de coisa são os partidos de maior visibilidade", diz Couto.
O PMDB foi o único que quase manteve o número de deputados estaduais -ganhou um. Para Teixeira, isso ocorreu porque o partido não tem "identidade". "Não dá para saber onde ele é situação e onde é posição."
Os dez partidos pequenos que ganharam as cadeiras não conseguiram ultrapassar a cláusula de barreira. Mas a tendência é a fusão. O PAN, por exemplo, já se uniu ao PTB.
"O eleitor, do ponto de vista da identidade partidária, acaba assimilando muito mais a pessoa do que o partido. Ele votou nos [candidatos do] Peroba e não no PAN", afirma Teixeira.




Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 10h27
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ELEIÇÕES 2006 / ARTIGO

Folha de São Paulo

Candidatos pareciam casal em crise

Alckmin e Lula entraram dispostos a "dizer verdades" um ao outro; resultado acaba sendo empate

MARCELO COELHO
COLUNISTA DA FOLHA "Viver a dois é uma arte", dizia o anúncio de uma fábrica de colchões que participava do eclético "pool" de patrocinadores do debate de ontem na Bandeirantes. Alckmin e Lula entraram em cena como um casal em crise, finalmente disposto a dizer "verdades" um para o outro. Do ponto de vista argumentativo, o resultado, como é comum nessas ocasiões, termina sendo um empate, em que nenhum dos dois parece estar com a razão.
Do ponto de vista político, Alckmin conseguiu o que queria: abandonar a imagem de "picolé de chuchu" e comportar-se com agressividade a ponto, mesmo, de prosseguir falando com os microfones desligados. Lula tinha números e mais números para mostrar a seu favor, mas seu rosto, nos dois primeiros blocos do debate, era o de alguém que não estava gostando do jogo.
"Quanta mentira!", dizia Alckmin ao telespectador, quando Lula afirmou nada ter feito para impedir a CPI dos Correios -que apurou as denúncias sobre o mensalão.
Imitando a fraseologia oposicionista, Lula perguntou se Alckmin "sabia ou não sabia" das irregularidades de Barjas Negri quando o convidou para participar de seu próprio governo.
O lençol imaculado da ética parecia curto para cobrir qualquer um dos candidatos. Alckmin marcou, entretanto, mais pontos nessa parte. Lula incorporou o termo "quadrilha" em seu discurso para dizer que sua origem remonta a Belo Horizonte, onde o PSDB tem culpa no cartório; quanto ao mensalão, Lula preferiu não negá-lo, para em troca lembrar da compra dos votos para a reeleição de Fernando Henrique.

Lençol curto
O lençol ainda era mais curto quando se tratava de falar das realizações e omissões de cada um. Em qualquer área administrativa, governo do Estado e federal têm mazelas facilmente exploráveis pelo discurso eleitoral. Se Lula apontava o dedo para a Febem, Alckmin falava na falta de hidrelétricas; se Lula lembrava do apagão, Alckmin atacava o Aerolula.
O efeito do debate é que nenhuma questão parecia ser efetivamente respondida, de tal modo se encavalavam os ataques e contra-ataques. É que o problema de base não tinha como ser discutido abertamente. Em todas as áreas, da segurança pública à construção de hidrovias, o Estado precisaria gastar mais; e não pode.
Tanto Lula como Alckmin sabem disso, e tornava-se um tanto frágil a insistência do tucano em "gastar melhor", "sem desperdício", quando a única proposta econômica no horizonte dos dois candidatos é controlar, com ainda mais rigor, o déficit público.
Seja como for, raras vezes se viu um debate tão intenso, com tantos números e problemas concretos em discussão. Soluções? Nenhuma foi sequer aventada pelos dois candidatos; a ordem era atacar. Alckmin, nesse ponto, fez mais do que se esperava dele, e isso é uma vitória para sua campanha junto aos indecisos; mas Lula, com uma extensa lista de comparações entre seu governo e o anterior, sem dúvida consolidou sua posição entre os que já pretendiam apoiá-lo.




Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 10h25
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FERNANDO DE BARROS E SILVA

Folha de São Paulo

Partido da negaça

SÃO PAULO - Qualquer que seja o desfecho da eleição, o PMDB deve sair dela vitorioso. Isso ficou mais uma vez evidente na última semana, quando o casal Garotinho, de um lado, e Sérgio Cabral, de outro, dividiram-se no mesmo dia em declarações de apoio a Alckmin e Lula.
Não se trata, é claro, de uma particularidade fluminense nem de um fenômeno desta eleição. O PMDB é a única legenda brasileira que desde Sarney, há 20 anos, administra a proeza de estar sempre e ao mesmo tempo no governo e na oposição.
Em ambos os casos, o partido nunca atua como protagonista, formulador ou pólo catalisador de um projeto político, mas sim na condição de sócio coadjuvante -capaz pelo seu tamanho de viabilizar ou azedar o que uma de suas lideranças chamou há poucos dias de "esse negócio da governabilidade".
O fim da ditadura e o colapso do nacional-desenvolvimentismo, fenômenos mais ou menos contemporâneos, jogaram o PMDB num vazio existencial. Sem adversário (o regime militar) e sem bandeiras (o Estado "peemedebista" havia caducado), o partido foi ocupado e loteado por caciques regionais -alguns deles remanescentes do velho patrimonialismo, outros neopredadores em ascensão, mas todos figuras que fazem da política sinônimo de negócio para preservação ou ampliação de seus domínios.
É essa estrutura de poder feudalizada que torna decorativa a função do presidente nacional do PMDB, tão bem representada na figura de Michel Temer, o bacharel do nada.
Pelo seu gigantismo, o PMDB tornou-se um lugar de passagem para políticos avulsos e de trajetórias erráticas, aventureiros com projeção nacional como Itamar Franco e o próprio Garotinho. Sua real vocação, porém, é outra.
Sendo o partido da negaça, a encarnação institucional do jeitinho, o PMDB tem algo a nos revelar sobre o Brasil para além (ou aquém) da polarização entre PT e PSDB. Antes de ser uma anomalia do sistema político, ele é prova vivíssima do fundo falso e do que está (ou não) em jogo na disputa presidencial.




Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 10h18
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Polarização popular

Folha de São Paulo

Ascensão de Alckmin e deflagração do segundo turno não se explicam pela adesão dos "ricos" à candidatura tucana

MUITO JÁ se falou da sobreposição inédita entre estratos de renda e preferência do eleitor nesta disputa presidencial. Verificado já nas primeiras pesquisas, o fato foi corroborado pelo resultado do primeiro turno. O apoio a Luiz Inácio Lula da Silva aumenta conforme diminui o rendimento; ocorre o inverso com Geraldo Alckmin.
Daí, no entanto, não se pode inferir que a forte identificação da elite brasileira com a candidatura tucana tenha sido responsável pela deflagração do segundo turno. Ainda que Alckmin houvesse obtido todos os votos dos eleitores cuja renda familiar mensal supera R$ 3.500, mantida a média de abstenção de 1º de outubro, lhe teriam faltado 35 milhões de sufrágios para chegar aos quase 40 milhões destinados ao candidato do PSDB nas urnas.
Ninguém se elege presidente da República no Brasil nem se torna um candidato competitivo para o Planalto sem apoio maciço no eleitorado cuja renda somada de todos os membros da família é inferior a cinco salários mínimos, ou R$ 1.750 por mês. Aí se concentram cerca de 80 em cada 100 cidadãos brasileiros com direito a voto. Aí se decidiu a ocorrência do segundo turno.
Entre a pesquisa Datafolha de 12 de setembro e a mais recente (5 e 6 de outubro, já após o primeiro turno), há mudanças relevantes de intenção de voto nessa faixa amplamente majoritária do eleitorado. Se Lula se mantém à frente com muita folga no estrato de renda mensal até R$ 700 (cerca de metade do eleitorado, concentrado no Nordeste), sua vantagem sobre Alckmin caiu nove pontos percentuais em pouco mais de três semanas.
No estrato de renda imediatamente acima (de dois a cinco salários mínimos mensais), que abrange um terço do eleitorado, metade habitando o Sudeste, houve inversão de posições. Lula liderava por cinco pontos; agora o líder é Alckmin, com quatro pontos de margem (49% a 45%).
É necessário, pois, aumentar a precisão das lentes com que se enxerga a realidade social brasileira para delimitar a polarização entre a candidatura petista e a tucana. Não se trata da anteposição simplista entre "pobres" e "ricos". O fenômeno se explica por variações muito tênues de renda -tanto mais tênues pelo fato de um salário mínimo comprar menos no Sudeste do que no Nordeste-, num universo em que nenhum grupo se distingue pela condição de vida tranqüila.
A candidatura Alckmin se tornou popular e por isso disputa o Planalto em condições muito próximas às de sua concorrente. De cada cem eleitores que manifestam intenção de votar no tucano, 77 têm renda familiar até cinco salários mínimos por mês. Lula é favorito, se a eleição fosse hoje, porque mantém-se ainda mais popular: 88% de sua preferência provém de pessoas com renda inferior a R$ 1.750.
Esse é um embate entre dois blocos populares quase equivalentes -embate no qual, devido à absurda concentração de renda, tem peso quase desprezível quem no Brasil desfruta de condição de vida análoga à da classe média européia ou americana.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 10h15
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O debate da Band até agora nenhum momento mostrou um projeto sério para a Nação, Geraldo Alckmin seu estilo de senhor da moralidade, o presidente Luiz Inácio Lula como o pai dos pobres, nenhum dos blocos houve proposta para diminui os juros, criação de emprego, as discussões apenas sobre o mensalão, dossiê e a Febem.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 22h18
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   Como uma onda sem mar

Tucanos esperavam mais das pesquisas para alimentar 'onda' contra Lula

dora.kramer@grupoestado.com.br / Estado de São Paulo

A primeira pesquisa de intenções de voto do segundo turno frustrou as expectativas dos adversários do presidente Luiz Inácio da Silva. O PSDB passou a semana confiando em pesquisas de rastreamento regional que indicavam que no Nordeste era impossível piorar a situação de Geraldo Alckmin, mas mostravam também a ampliação da dianteira do tucano em Estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

Politicamente fortalecido com a decisão da eleição presidencial no segundo turno, Alckmin ficou, na primeira pesquisa, numericamente muito mais distante do candidato à reeleição do que indicavam as consultas regionais e sinalizava a onda de otimismo que tomou conta da oposição. Em dado momento, mais exatamente no dia seguinte à oficialização do resultado, os tucanos nutriram a esperança da segurança na virada certa.

Na sexta-feira à noite, quando o Datafolha divulgou a primeira pesquisa levando em conta só os finalistas, a oposição percebeu que começava a segunda etapa do mesmo tamanho que terminara a primeira: 7 pontos porcentuais atrás do adversário.

O peso das confusões patrocinadas pelo PSDB em suas articulações para alianças da reta final é uma hipótese ainda a ser medida. O fato nu e cru, por enquanto, é que o ânimo inicial foi contaminado pela possibilidade de a 'onda' pró-oposição se quebrar na praia.

A aliança PSDB-PFL ainda considera possível tirar a diferença e conta para isso com o empenho dos governadores eleitos de São Paulo, José Serra, e Minas, Aécio Neves. Alvos de desconfiança inicial entre os próprios aliados sobre a disposição real deles para eleger Alckmin, ambos já são objeto de análises onde são levadas em conta as perdas e os ganhos de cada um.

Internamente ninguém acredita que o PT vá se dedicar com afinco real à tarefa de acabar com o instituto da reeleição.

Se a reeleição se mantiver, Aécio fica numa posição privilegiada dentro do PSDB, pois em 2010 será o único tucano de expressão nacional inteiramente disponível. Não concorrerá mais à reeleição, embora possa disputar uma vaga no Senado.

Aécio fica livre enquanto Serra permanece retido à possibilidade de outro mandato pela frente, o que o prenderia ao Palácio dos Bandeirantes pela mesma lógica que o impeliu a concorrer ao governo: a manutenção do poder no maior Estado da Federação e a interdição do acesso a ele pelo PT.

Nessa conta, conviria muito mais a Aécio do que a Serra a eleição de Alckmin para a Presidência da República. De onde se explica a promessa do governador de Minas de dar 60%, contra 40% no primeiro turno, dos votos de Minas a Geraldo Alckmin que, em São Paulo, credita sua dianteira ao próprio desempenho e à herança de Mário Covas, não ficando, na sua visão, a dever um só voto a José Serra.



Fim de linha

Em reunião de Executiva Nacional, o PFL pedirá amanhã abertura de processo disciplinar contra a candidata ao governo do Maranhão, a senadora Roseana Sarney. Motivo: o apoio ao presidente Lula, em ritmo de indiferença total à aliança nacional do pefelê com o PSDB.

O processo pode até não dar em nada nem resultar em expulsão, mas explicita a insatisfação com Roseana pela fidelidade a Lula, usando o horário e a estrutura do partido para tentar se eleger.

No PFL, a avaliação é a de que chega ao fim da linha a relação com a família Sarney. Que antes tinha o apoio, mas agora conta com a oposição do grupo do senador Antonio Carlos Magalhães.



Rumo novo

Depois de viver o mais tenso dos seus cinco mandatos como deputado, o petista Paulo Delgado perdeu a eleição em Minas, vítima do voto de 'opinião' contra o PT.

Agora, pensa fazer o que, segundo ele, deveria ter feito antes, mas não fez por noção de dever partidário: atracar seu barco em outro e ainda não escolhido porto.



Só depois

A despeito do discurso governista pedindo pressa para a conclusão das investigações sobre o dossiê Vedoin, a Polícia Federal usará o prazo legal para conclusão do inquérito. Levando em conta a prorrogação permitida, a data final é 15 de novembro.

O lema na PF hoje é trabalhar nem tão devagar que denote proposital leniência nem tão depressa que antecipe conclusões para antes do dia 29 de outubro. Por isso, o apego ao formalismo dos prazos é a melhor solução.



Máquina

Os funcionários na Petrobrás estão recebendo e-mails da direção da empresa 'informando' que, se votarem em Alckmin, contribuirão para pôr em risco seus empregos, pois o candidato do PSDB, dizem, vai privatizar a empresa.

Em Manaus, é disseminada a versão de que Alckmin acabará com a Zona Franca.

Se tiverem tutano e argumentos consistentes, os tucanos explicam-se ao eleitor com clareza e objetividade. Se não tiverem, sucumbirão ao que, quando era contra o PT em 2002, convencionou-se chamar de 'terrorismo eleitoral'.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 12h45
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   Collor tenta se reinventar na volta à política

Eleito senador por Alagoas, ex-presidente troca postura agressiva por gestos de entendimento

Expedito Filho / Estado de São Paulo

A estampa e o discurso do ex-presidente Fernando Collor de Mello, eleito senador por Alagoas pelo inexpressivo PRTB, agora são de bom moço. Símbolo da época em que ele governou o País, até a gravata Hermès foi retirada do vestuário. O novo modelito é mais despojado. Nas conversas, trocou os ataques virulentos e ressentidos contra adversários por declarações que buscam o diálogo e o entendimento. Até o uísque Logan foi substituído pela cachaça e, ao invés de morar na Casa da Dinda, como nos tempos de presidente, já avisou que ocupará um apartamento funcional.

A decisão é surpreendente. Quando presidente, Collor vendeu de forma furiosa os imóveis da União. A justificativa era a de que casas e apartamentos funcionais eram moradias de marajás, termo usado para atacar funcionários públicos. Para dar o bom exemplo, Collor recusou-se a morar no Palácio da Alvorada e instalou-se na Casa da Dinda, uma residência no abastado Setor de Mansões do Lago Norte, com cascatas artificiais e jardins projetados por paisagistas. Ali, carimbou o seu impeachment: o Fiat Elba, pago pelo esquema de cheques fantasmas de PC Farias, foi fotografado na saída da mansão.

Collor está se reinventando. Deseja projetar a imagem de político maduro, diferente do ex-presidente que se proclamava caçador de marajás e prometia derrotar a inflação em uma única batalha e com um tiro. 'Estou de espírito desarmado. Preciso restaurar laços e estabelecer vínculos de amizade', confidenciou a um amigo logo após a confirmação de sua eleição.

Em relação ao presidente Lula, não apenas o defendeu publicamente, como já mandou o recado de que votará propostas governistas em benefício do povo, ou como se dizia na época em que governou o País, dos descamisados. Em conversa com um amigo, confidenciou que tem mais simpatias com petistas do que com tucanos. Ao ex-presidente e senador José Sarney (PMDB-AP), adversário de longa data, a mensagem também foi de paz.

Com outro desafeto, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), já edificou uma base concreta para reconstruir a ponte da amizade. Quando rompeu com o então presidente, Renan disse que 'o mar de lama era tão grande que somente surfista subiria a rampa do Planalto'. Em resposta, Collor vestiu uma camiseta com os dizeres: 'O tempo é o senhor da razão.'

Passados 14 anos do impeachment, os dois prometem retomar a velha amizade e o próprio Renan já não lembra de ter dito a frase e nem vê dificuldade em conviver com o ex-presidente. 'A presença de Collor no Senado será interessante', previu.

Quem priva da intimidade de Collor observa que, desde sua separação de Rosane - sua companheira durante 21 anos -, ele tem se mostrado mais tranqüilo. Parte dessa mudança é atribuída ao casamento com a arquiteta Caroline Medeiros, de 29 anos. 'Ela é a mulher da minha vida', repete.

No melhor estilo primeira-dama, ela acompanhou Collor em boa parte das viagens pelo interior de Alagoas nesta eleição, pedindo votos aos descamisados. Subia com ele nos caminhões, acendia um sorriso no rosto, ligava o abanador de mão e ia embora até o fim do povoado, quando ele gentilmente a ajudava a descer.

Apesar de ainda nem ter tomado posse como senador, Collor não descarta nas entrevistas a possibilidade de concorrer a outros cargos. Por precaução, registrou dois parentes como suplentes na sua vaga de senador.

COLABOROU ROLDÃO ARRUDA



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 12h40
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   Contradições marcam alianças

Nos Estados, Alckmin e Lula recebem apoio de adversários e antigos aliados viram rivais no segundo turno

Marcelo de Moraes / Estado de São Paulo

As conveniências políticas pessoais e regionais estão comandando as alianças para as eleições em segundo turno e se tornaram fator de peso na disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin. Com dez governos estaduais ainda indefinidos e a promessa de uma reta final eleitoral acirrada, os dois candidatos ao Palácio do Planalto têm aceitado conversar com todo mundo, literalmente. O mesmo fenômeno se reproduz regionalmente na eleição para governador.

Por conta de uma série de contradições ideológicas, políticos do mesmo partido embarcam em candidaturas adversárias e inimigos do primeiro turno se preparam para pedir votos juntos na reta final.

Apenas no Rio de Janeiro, por exemplo, Alckmin e Lula dividiram o PMDB local. Lula atraiu para seu palanque nacional o senador Sérgio Cabral Filho, que terminou na frente no primeiro turno estadual, apoiando sua candidatura local em troca. Já Alckmin levou do PMDB fluminense para seu palanque o ex-governador Anthony Garotinho, a governadora Rosinha Matheus e o ex-governador Moreira Franco.

O movimento provocou o primeiro estrago político da campanha de Alckmin no segundo turno e resume bem a incoerência eleitoral. No primeiro turno, o tucano teve como principal aliado no Rio o prefeito da capital, César Maia (PFL), rival direto de Garotinho, e que apóia a candidatura local de Denise Frossard (PPS) ao governo.

Precisando aumentar seus votos na Baixada Fluminense e em outras cidades do interior do Rio, Alckmin acertou uma polêmica aliança com Garotinho, provocando a fúria de César Maia, que viu a decisão como um golpe na candidatura de Frossard, já que o ex-governador apóia Cabral no Estado.

Alckmin nem se identifica com a política de Garotinho, mas vê no novo aliado uma entrada em redutos eleitorais dominados por Lula. A vantagem do petista na capital e nos maiores colégios eleitorais do Estado foi de 1,4 milhão de votos.

Assim, no meio dessa confusão, Garotinho patrocina a candidatura de Cabral para o governo, que pede votos para Lula, que vê sua força no Rio ameaçada porque Garotinho pede votos para Alckmin, que pede votos para Denise Frossard. Parece difícil de entender e é mesmo. Só para complicar ainda mais: no primeiro turno, Alckmin fez campanha no Rio para Eduardo Paes (PSDB).

As contradições são tão grandes que partidos invertem suas posições conforme a situação regional. PMDB e PP fazem isso em Goiás e Santa Catarina. Em Goiás, no segundo turno, o senador Maguito Vilela (PMDB) conta com o apoio de Lula para derrotar Alcides Rodrigues (PP), que terá a ajuda de Alckmin já que é ligado ao senador eleito Marconi Perillo, um dos principais líderes tucanos. Em Santa Catarina, o governador Luiz Henrique da Silveira (PMDB) abrirá seu palanque para Alckmin, já que seu vice é o tucano Leonel Pavan. Seu adversário será Esperidião Amin (PP), que negocia abertamente um acordo com Lula.

Em Pernambuco, os adversários também se juntam sem constrangimento. Colegas de equipe ministerial de Lula, Eduardo Campos (PSB) e Humberto Costa (PT) fizeram um primeiro turno às turras, já que apenas um deles chegaria à reta final contra o pefelista Mendonça Filho. Agora, para bater Mendonça, Campos já assegurou o apoio de Costa.

Mendonça deve abrir palanque para Alckmin, tentando colar no crescimento eleitoral registrado na reta final do primeiro turno. Ou seja, fará o que não fez no primeiro turno, quando chegou a participar de solenidades com Lula, embora o candidato a vice na chapa de Alckmin seja o senador José Jorge, também do PFL pernambucano.

No Maranhão, a senadora Roseana Sarney (PFL) ignora a indicação do seu partido para apoiar Alckmin e pede votos para Lula. Ela faz isso para barrar o avanço de Jackson Lago (PDT), que a ameaça no segundo turno. Como o festival de contradições é interminável, o PDT, partido de Lago, está praticamente fechado nacionalmente em favor de Alckmin.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 12h34
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   Para onde vai o vento?

Gaudêncio Torquato* / Estado de São Paulo

Por que a vitória, que se previa tão fácil a ponto de propiciar negociações com vista ao segundo mandato, ameaça escapar das mãos de Luiz Inácio? Afinal de contas, por que a campanha eleitoral ganhou um segundo turno? Uma resposta satisfatória a estas duas perguntas abre pistas para se chegar ao vencedor, em 29 de outubro, podendo ser ele, o presidente Lula, ainda franco favorito, e, com razoável possibilidade, o adversário, Geraldo Alckmin. O caráter do brasileiro, a cultura política e a psicologia das massas são os três fatores que explicam a imprevisibilidade da tomada de decisão do eleitor no atual pleito. Antes que sejamos acusados de cometer uma platitude, avancemos nas explicações: o vento mudou de rumo, nos dias que antecederam o pleito; uma surpreendente onda anti-Lula se formou; as classes médias contribuíram para adiar a escolha; e o eleitor brasileiro muda de voto e é capaz de decidir na última hora.

O mestre Fernando de Azevedo, estudioso do caráter nacional, ensina que o brasileiro agrega três características: bondade, reserva e desconfiança. Generoso ao extremo, vota em gente séria, mas oferece as sobras para mensaleiros, sanguessugas, perfis polêmicos como Collor ou extravagantes como Clodovil. Afinal, no mosaico étnico-cultural brasileiro, cabe a fusão harmônica de ingredientes mentais, com votos conscientes, racionais, emotivos, agradecidos, cacarecos, debochados e histriônicos. A afetividade e a irracionalidade, que puxam a alma nacional para a improvisação e a imprevidência, não apagam, porém, a tintura de desconfiança, que salta aos olhos quando se vê diante de pessoas que querem ludibriá-lo. A generosidade dá lugar às paixões violentas. Coloque-se, agora, no menu o recheio de escândalos que, há mais de ano, batem na cachola dos eleitores, adicionando-se o caldo grosso do dossiêgate, e se chega a uma razoável idéia do que ocorreu nos últimos dias antes de 1º de outubro. O que eram favas contadas para Lula acabou em votos descontados no índice de 1,39% de que precisava para ganhar no primeiro turno.

A corrupção, vale dizer, tornou-se banalizada, a ponto de o eleitor nivelar por baixo a classe política, sobrando espaços de admiração apenas para poucos, entre os quais o próprio presidente da República, símbolo maior da dinâmica social brasileira. Graças ao carisma, Lula tornou-se um perfil que paira sobre o PT, partido manchado. Mas nenhuma cultura política, por mais destrambelhada que seja, resiste ao bombardeio de uma mídia que estampa montes de cédulas de reais e dólares arrumados pelo PT para comprar um dossiê contra o candidato José Serra. O feitiço dos 'aloprados' virou contra o feiticeiro. Nesse ponto, entra em cena o velho Pavlov, com a receita dos reflexos condicionados, centrada em conceitos como excitação, intensidade de atenção, reações emotivas de interesse e reflexos de orientação. Interpretação da psicologia: a excitação gerada pela dinheirama despertou a atenção das massas, que ganharam reflexos de orientação a respeito dos candidatos. Caiu lama na roupa do presidente. As classes médias, tomadas de indignação, ainda mais pelo fato de anotarem a fuga de Lula ao debate com o adversário na TV, mais dele se afastaram.

Explica-se, assim, a tendência de crescimento, mesmo a conta-gotas, de Geraldo Alckmin e a leve curva descendente de Lula, às vésperas do pleito. As duas curvas se encontraram no dia da eleição. E não se vão anular. O segundo turno não zera tudo, como se diz. A campanha continuará sob o resultado dos primeiros 45 minutos do jogo. Esse resultado aponta para leve vantagem de Lula, mas a curva do opositor é ascendente. Chega a vez da aritmética eleitoral. Os tucanos José Serra e Aécio Neves ganharam bem nos dois principais colégios eleitorais do País, São Paulo, com 28 milhões de votos, e Minas Gerais, com 13 milhões. Serra ganhou com 57,93% dos votos válidos e Aécio, com 77,03%. Alckmin teve nos dois Estados, respectivamente, 54,2% e 40,62% e Lula, 36,77% e 50,8%. Se Geraldo, com a força de Aécio, conseguir mais 10% em Minas, meta bem razoável, e alcançar a mesma votação de Serra em São Paulo, ultrapassará Lula. No Rio, terceiro colégio eleitoral, Geraldo contará com o apoio do polêmico Garotinho, que apóia Sérgio Cabral, que apóia Lula. Os eleitores de Denise Frossard votarão mais em Alckmin. Nos três Estados do Sul, o tucano suplantou Lula em 20,39%. Considerando-se o favoritismo de Yeda Crusius (RS), que receberá os votos do PMDB de Rigotto, e do favorito Luiz Henrique (SC), o desempenho de Geraldo poderá até melhorar no Sul, lembrando que os deputados peemedebistas do Paraná, mesmo apoiando o lulista Requião, estão com o tucano.

Os maiores cabos eleitorais de Lula estão no Nordeste: Jacques Wagner, na Bahia, que ganhou o governo, e Ciro Gomes, no Ceará, com a maior votação proporcional do País, que lutarão para expandir o voto lulista. Observe-se, porém, que os correligionários do candidato do PSDB na região permaneceram enrustidos, temendo a derrota no primeiro turno. Agora, com a campanha federalizada, serão obrigados a tomar partido. Ademais, o índice de Lula no Nordeste parece bater no teto. No Centro-Oeste, a crise da agricultura foi responsável pela derrota de Lula em cinco Estados, inclusive no Acre, território petista. Diz-se que Lula tentará reconquistar as classes médias e entrar de sola em São Paulo, tarefa complicada tanto pelo discurso de que governa apenas para os pobres quanto pelo verniz anti-Lula que cobre os fortes contingentes médios no Sudeste. Não se recompõe confiança em 20 dias. A sabedoria popular ensina que não há força capaz de mudar o rumo do vento. Os pacotes de dinheiro do dossiêgate forçam o vento na direção oposta a Lula. Mas ele poderá demonstrar a velha regra da política: tudo é possível. Afinal, pode mobilizar ministros para a campanha e liberar recur$o$. Adivinhem o discurso que ouviremos: 'Nunca neste país alguém venceu o vento. Fui o primeiro.'

*Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 12h26
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VINICIUS TORRES FREIRE

Folha de São Paulo

Aritméticas da eleição



Risco de "fusões e aquisições" cresce na Câmara; pesquisa do segundo turno confirma polarização social do voto
O JOGO DA ELEIÇÃO ficou praticamente inalterado quase uma semana depois do primeiro turno. Os eleitores que não viram seus candidatos passar para a final ou que não haviam votado em ninguém dividiram-se de modo mais equilibrado que o previsto entre Lula da Silva e Geraldo Alckmin. Na véspera da votação de domingo, havia muito mais eleitores pendendo para o tucano no segundo turno. De resto, o determinante essencial da eleição para presidente continua a ser a polarização social.
A vantagem de Alckmin sobre Lula entre os eleitores de famílias mais ricas (mais de dez salários mínimos) subiu de 33 para 45 pontos percentuais, da pesquisa da véspera da votação de domingo para o Datafolha de anteontem. Entre as famílias mais pobres (renda inferior a dois salários), a vantagem do petista subiu de 21 pontos para 25. Nas capitais, Alckmin perdia por dez pontos para o presidente-candidato há apenas dez dias. Agora, empata o jogo.
Ainda tende a votar mais em Lula o eleitor mais pobre, com menos educação formal, de Estados com IDH baixo, mais oligárquicos e mais dependentes da União, de economias mais rudimentares. Trata-se de um fato; não quer dizer que o eleitor de Lula seja ignorante, o que de resto não vem ao caso: política trata de interesses e visões de mundo.
Como diz o pessoal do mercado, o caso da quadrilha de patetas petistas do dossiê estaria por ora "precificado"? Isto é, todo o seu efeito nas intenções de voto já teria ocorrido? Alckmin teria de receber outra leva de votos de bandeja, trazidos pelos escândalos? Ou enfim apresentaria um projeto socialmente relevante para o eleitor mais desvalido?

E o Congresso, como fica?
Em 2002, foram eleitos parlamentares por 19 legendas. O troca-troca de deputados fez com que apenas 16 partidos tivessem representação no dia da posse. O PFL, o PSDB e o PMDB perderam deputados. Partidos nanicos suicidaram-se. Os partidos mensaleiros aliados do PT inflaram.
Em 2006, o cálculo da formação de coalizões ainda é uma pilhéria, o que Manuel Bandeira dizia sobre o cálculo das probabilidades e diria a respeito dos índices de fragmentação e fracionalização do Congresso, se conhecesse tais coisas. Nesta eleição, cresceu um pouco o índice de fragmentação, tal como o calculam os politólogos, o que ocorre desde 1994. Outro dado interessante é a queda da votação parlamentar de PT e PFL em relação a 2002; PSDB e PMDB cresceram na urna.
Mas o que aumentou mesmo foi o risco de insalubridade na formação de coalizões. A cláusula de barreira tira cargos, dinheiro e tempo de TV dos partidos nanicos (13 de 21 partidos, somando 93 deputados). A fim de não perder tais benefícios, nanicos devem se fundir, entre eles ou com os partidões.
Ou seja, é muito precário especular sobre a "governabilidade" ou a "base aliada" do governo, seja Lula ou Alckmin o eleito. Haverá a migração oportunista de sempre para o governismo e partidos inflados. Na aritmética, a dificuldade de formar maioria no Câmara será quase a mesma da legislatura passada. Mas as oportunidades de fusões e aquisições só aumentaram.

vinit@uol.com.br



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 11h51
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ELEIÇÕES 2006 / PRESIDÊNCIA

Folha de São Paulo

Êxito de Alckmin azeda plano do tucanato

Passagem de ex-governador ao segundo turno implode acordo informal de tucanos com Lula e ameaça pretensões de Serra e Aécio

Para tentar vencer a eleição, petista agora ataca todo o PSDB e leva para sua tropa de choque Ciro e Marta, dois possíveis presidenciáveis

MÔNICA BERGAMO
COLUNISTA DA FOLHA

A passagem de Geraldo Alckmin (PSDB-SP) para o segundo turno das eleições presidenciais implodiu um acordo informal que já estava sendo firmado entre lideranças do PSDB e o presidente Lula e ameaça levar de roldão as pretensões presidenciais de duas das maiores figuras do partido: José Serra, governador eleito de São Paulo, e Aécio Neves, de Mina Gerais.
Caso Lula tivesse liquidado a fatura no primeiro turno, Alckmin estaria lambendo (sozinho) as feridas da derrota. Serra e Aécio seriam hoje os principais candidatos à sucessão do petista. E, até segunda ordem, os únicos: nas conversas com Aécio, antes do primeiro turno, Lula chegou a dizer que, com a derrota de Aloizio Mercadante ao governo de SP, o PT não teria candidato competitivo à Presidência em 2010.
Em conversa com amigos, em setembro, quando as pesquisas indicavam que poderia ser eleito em primeiro turno, Lula disse: "As pessoas vêm me falar de Serra e Aécio. Quem disse que um deles não pode estar no nosso palanque em 2010? Ou que eu não posso estar no palanque de um deles?".
A missão de dialogar com Serra era do ministro Márcio Thomaz Bastos, da Justiça. Os dois tiveram vários encontros nos últimos meses em SP.

"O PT não dará trégua"
Em palestra para banqueiros, pela qual recebeu R$ 15 mil, o ex-ministro Antônio Palocci detalhou, em setembro, o acordo informal: os tucanos ajudariam Lula a aprovar reformas no Congresso. Em troca, teriam atendidos seus pleitos junto ao governo federal.
A possibilidade de vitória de Alckmin explode tudo. Em primeiro lugar, tirou Lula da posição de "amigo", como ele se referia a Serra e Aécio: para vencer as eleições, o presidente começou a atacar não só Alckmin mas todo o PSDB. E convocou dois possíveis presidenciáveis, que andavam sumidos, para a sua "tropa de choque": Marta Suplicy e Ciro Gomes.
Caso Alckmin vença as eleições, o quadro muda ainda mais: dez entre dez tucanos duvidam que ele abra mão de concorrer à reeleição. De dois, o número de presidenciáveis de 2010 pula para pelo menos quatro: Alckmin, Serra e Aécio, pelo PSDB, e o próprio Lula, como candidato de oposição.
Em jantar com empresários em SP, na semana passada, um dos deputados mais influentes do PT afirmou: "Vamos ser claros. Existia um acordo entre nós [PT] e o PSDB: o próximo governo era do Lula. O de 2010, do Serra ou do Aécio, sem problemas. Com Alckmin, o acordo será rompido. E Alckmin vai ter derrotado o Serra, o Aécio, o FHC, o Lula, todo mundo". De acordo com o parlamentar, "o Alckmin, se eleito, não vai governar" porque PT, MST e CUT "não vão dar trégua".

"Não é possível"
Amigos íntimos e políticos do grupo de Serra no PSDB e no PFL mal disfarçam o desconforto com a possibilidade de Alckmin vencer as eleições.
Dias antes do primeiro turno, no coquetel do debate que a TV Globo promoveu entre os candidatos ao governo de SP, um dos políticos de maior destaque no Estado, muito próximo de Serra, fez cara de enterro ao receber a notícia de que pesquisas telefônicas indicavam que haveria segundo turno.
"Não é possível! Quem te falou?", perguntou o político à Folha. Depois, chegou a cochichar com a colunista: "Ele [Alckmin] não vai passar [para o segundo turno]. Não é possível, não vai dar tempo."
De acordo com um político do PFL paulista, a vitória de Alckmin vai fazer com que a disputa, no PSDB, "vire uma briga de foice no escuro". O mais irônico é que tanto Serra quanto Aécio, pressionados por Alckmin e sobretudo pelos eleitores tucanos que querem Lula fora do Planalto, devem se engajar agora na campanha.
Tucanos ouvidos oficialmente pela Folha negam que a vitória de Alckmin desagrade setores do PSDB. "Isso não existe. Não há um só tucano que esteja a favor da vitória do Lula. Há situações históricas em que o bem do país está acima de interesses pessoais", diz o ex-ministro Paulo Renato de Souza.
A vitória de Alckmin estava fora também dos planos de Fernando Henrique Cardoso, que já se preparava para ser o porta-voz da oposição a Lula.
FHC nunca escondeu que preferia ver Serra candidato à Presidência. Ele só decidiu apoiar Alckmin quando ouviu de especialistas como Carlos Augusto Montenegro, do Ibope, que Lula era um candidato "quase invencível". A um interlocutor, FHC foi claro: "Vamos colocar o Alckmin para perder. E preservar o Serra para 2010".
Entre amigos íntimos, FHC, celebrado pelo bom humor e por perder o amigo, jamais a piada, chegou a dizer, em março, que a derrota de Alckmin obrigaria os tucanos a comprarem uma butique para a filha dele se ocupar. Sophia, filha de Alckmin, já trabalhou na Daslu.



Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 11h45
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JANIO DE FREITAS

Folha de São Paulo

Fonte de decisão


É mais do que provável, nos adeptos de Heloísa, farta maioria de quem se horrorize com a idéia de volta do PSDB

AO LADO DAS surpresas que o primeiro turno proporcionou, tudo indica que o segundo plantará uma boa ironia, com pitadas fortes de castigo. A Heloísa Helena que, tão logo conhecido o resultado presidencial, partiu em fúria (precisaria dizê-lo?) contra a possibilidade de apoio do seu PSOL a Lula, já desponta como o manancial de votos mais decisivo para a possível vitória de um dos disputantes. Lula.
Com os 50% que o primeiro Datafolha deste turno lhe atribui, Lula volta ao índice com que fechou agosto, graças à recuperação de cerca de 1,5% da sua perda verificada nas urnas. Durante a semana passada não houve atos de efeito propagandístico por parte de Lula, logo, o acréscimo que já obteve foi espontâneo. E que eleitorado teria a tendência de fazê-lo com tanta presteza, senão o que foi levado às urnas do primeiro turno por Heloísa Helena?
O PT e Lula têm inclinações extravagantes a respeito de eleição presidencial. Se não as praticarem, a ele basta recuperar o mesmo que obteve nos últimos dias, para retornar ao seu melhor índice, constatado no início de setembro. Será o suficiente até para resguardar-se da margem de erro eventualmente contrária. Um quarto dos 6,85% de Heloísa Helena no primeiro turno já faz tal proeza. E, convenhamos, é mais do que provável, nos adeptos de Heloísa Helena, farta maioria de quem se horrorize com a idéia de volta do PSDB ao poder.

Altos e baixos
Como esperável, assim que voltou a Brasília o senador Antonio Carlos Magalhães entregou-se a um discurso, isto é, a uma agressão verbal a Lula. Para Antonio Carlos, a vingança não é prato que se espere esfriar. Ainda mais com o dossiê-sanguessuga tão fresquinho nas manchetes. Antonio Carlos fez até uma revelação espantosa: um nome novo entre os "criminosos do PT", nada menos que um dos chefões. Fred Suter. Pasmo. Ninguém imaginaria isso.
O colunista social Fred Suter, com o estilo comum à maioria dos colunistas sociais, fez uma nota esclarecedora. O senador queria dizer Freud Godoy e atacou de Fred Suter: "Foi um alto falho". Ou foram dois baixos, um de cada.
Feita a sua afirmação de que "Mário Covas está se removendo na tumba", a candidata Denise Frossard removeu depressa seu rompimento com Alckmin. Mas não remoeu uma explicação convincente. O casal Garotinho não foi a Alckmin por iniciativa sua. E a reviravolta de Frossard não foi porque Alckmin atribuísse o encontro ao casal, mas porque o deputado Roberto Freire, presidente do PPS de Frossard, exigiu dela o recuo no rompimento induzido por Cesar Maia.
Com a mesma pressa, Denise Frossard dizia à CBN antes do primeiro turno: "Segurança é questão de informação e balística. E eu tenho informação e balística". Ainda não se sabe se a candidata queria dizer logística ou se prometia segurança a poder de canhão. Aguardemos para saber se foi "alto falho".




Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 11h43
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CARLOS HEITOR CONY

Folha de São Paulo

Anjos e demônios

RIO DE JANEIRO - A busca de apoios para o segundo turno vem demonstrando que a ética (uma expressão-bonde que comporta diversas variantes) está sendo a tônica dos candidatos que fizeram da moralidade o diferencial de suas campanhas. Temos o caso da Denise Frossard, que desaprova seu candidato inicial (Alckmin) por causa do apoio de Garotinho, um apoio que não pode ser recusado.
O cenário ético montado após os escândalos do PT demonizou diversos personagens de nossa vida pública. No limite, o candidato ético, ou pretensamente ético, deveria pedir folha corrida e atestado de bons antecedentes a todos os eleitores que o apóiam. Razão de sobra teve FHC ao perguntar se Lula recusaria o apoio de Collor.
A ética tem uma prima pobre que se chama hipocrisia. Por fora, a bela viola repudia o pão bolorento. Proclama-se em altos brados o desprezo pelo apoio da "perdutta gente" que habita o inferno criado por Dante. Nos bastidores, sabemos que há uma briga de foice pelos apoios, que, no fundo, voto é voto, sejam eles imaculados, como pretende a Denise Frossard, ou maculados pelas denúncias e suspeitas que cercam determinados personagens da vida pública nacional.
Lembro uma frase de Churchill durante a Segunda Guerra Mundial: "Se o demônio for contra Hitler, eu me aliarei ao demônio". Era fácil então localizar o mal absoluto num único personagem. Em tempos de paz, a classificação de bom e de mau fica embaralhada, e cada lado tem o direito de escolher o seu demônio particular.
Tenho um amigo mineiro que jogou fora a sua estrela do PT que usava na lapela ao saber que Lula se uniria a Newton Cardoso, outro satanizado da política nacional.
Não faltam demônios e há anjos demais para todos os gostos.




Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 11h41
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ELIANE CANTANHÊDE

Folha de São Paulo 

Bola em campo

BRASÍLIA - Lula foi melhor do que Alckmin no aquecimento do segundo turno, ao partir para o ataque na cara dura: liberou R$ 1,5 bilhão do Orçamento 11 dias depois de ter bloqueado valor equivalente, dispensou ministros para fazer campanha e assumiu o discurso-ameaça de que Alckmin vai acabar com o Bolsa Família e vender as estatais (como o Banco do Brasil).
Alckmin também entrou no vale-tudo, abraçou-se aos Garotinho e reacendeu no segundo turno, já no aquecimento, o clima de "crise" que varou todo o primeiro tempo, quer dizer, o primeiro turno.
A diferença é que Lula pisa na bola, mas o efeito pode valer a pena, já que a máquina é poderosa num jogo eleitoral. E Alckmin pisa na bola, mas o efeito é incerto e não sabido.
O primeiro Datafolha do segundo turno mostra Lula à frente, com uma dianteira de oito pontos nos votos válidos. Não é motivo de foguetório para o tucano, mas também não é para o petista. Não é uma margem confortável. Longe disso.
A campanha, em si, está sendo deflagrada hoje com o debate da TV Bandeirantes, num momento nervoso, que vai projetar como serão os confrontos a partir de agora entre os dois candidatos. Quem for bem tende a continuar indo bem.
Até aqui, sabe-se que Lula é mais quente, envolvente, tem melhor diálogo com a média da população e sobretudo com os menos escolarizados. Como se sabe que Alckmin é frio, distante, professoral -só que isso tem-lhe sido mais favorável do que desfavorável em debates.
É hoje, ao vivo e em cores, que se vai saber na prática qual o jogador mais preparado, mais ágil, mais convincente e com maior capacidade de levar seu time à vitória. Sem desconsiderar as partidas mais "técnicas" (ou menos sinceras): os programas de rádio e TV.
Não dá para adivinhar resultados antes do início da partida, e esse início é hoje. Começam as apostas.


elianec@uol.com.br




Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 11h40
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CLÓVIS ROSSI

Folha de São Paulo

Purificação meia boca

SÃO PAULO - A introdução da chamada "cláusula de barreira" deu uma purificada no sistema partidário, certo? Pelo menos, reduziu para oito o número de partidos autorizados a gozar das vantagens do pleno funcionamento parlamentar.
Oito, se o Tribunal Superior Eleitoral referendar a interpretação mais lógica da regra. Mas a purificada, como quase tudo no Brasil, é meia boca.
Para começar, oito partidos é uma demasia. Não há no Brasil e no mundo oito diferentes ideologias, programas nem mesmo oito idéias-força diferentes a serem oferecidas ao eleitorado.
Prova-o o fato de que, no mundo civilizado, o jogo se dá entre dois partidos grandes, bem grandes, coadjuvados por um ou dois menores. São trabalhistas e conservadores no Reino Unido, democratas e republicanos nos Estados Unidos, socialistas e conservadores na Espanha e por aí vai.
Nesse jogo reduzido, há espaço até para extremos, caso da Frente Nacional na França, no que é, a um só tempo, a beleza e a vulnerabilidade da democracia, que permite a existência de gente que sonha em acabar com ela.
Mas o excesso de partidos, mesmo após a purificação, não é o único problema. Há ainda a absurda indiferenciação entre eles, claramente retratada na foto-arte "A salada fluminense de Lula", publicada por esta Folha na sexta-feira. Sem grande esforço, a "salada" poderia ser reconstituída para todos os demais partidos.
Mais: os oito partidos que superaram a cláusula de barreira amontoam-se todos do centro à direita.
Não há esquerda, já que PSOL-PSTU não passaram no teste. O sistema político-partidário é obviamente desfuncional. E ainda vai se verificar que a desfuncionalidade é, ao menos em parte, a causa de todos os demais -arquiconhecidos- problemas sociais, éticos, econômicos etc.


crossi@uol.com.br

Escrito por Luiz Cláudio Ferreira Barbosa às 11h38
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